Se fizermos uma busca rápida no Google, encontraremos diversos sentidos para a palavra desvio. Dentre alguns, podemos destacar o desvio como a realização de funções que não estão previamente descritas no script ou no briefing de execução de dada tarefa, podendo assim gerar insatisfações, cabendo a uma equipe identificá-lo com vias a promover ajustes e sanar os problemas, devolvendo a harmonia. Outro sentido encontrado para a palavra desvio, de acordo com as ciências exatas, seria nomeá-lo como a raiz quadrada da variância, ou ainda, de acordo com a língua portuguesa padronizada, como uma espécie de “tropeço” na estrutura da gramática normativa. Um derradeiro sentido mais póetico aponta um desvio como uma mudança de direção ou posição pela sinuosidade de um caminho. No que diz respeito a desvios psicanalíticos, talvez todos esses sentidos apontados acima nos sejam oportunos. É de nosso interesse, sustentar o incômodo de escaparmos do que previamente se definiu como papel ou posição de psicanalistas. Talvez o que entreguemos seja o exercício de tarefas-de-casa outras, àquelas que parecem ter sido feitas por crianças queer advertidas por sambarem durante o hasteamento da bandeira e a cantoria do hino nacional. Provavelmente, estejamos entre as fileiras, subvertendo as regras do jogo de uma Psicanálise hegemônica e ortodoxa, e por vezes, perdendo de 7 a 1, mas ainda assim tentando. Em termos mais poéticos, talvez as psicanálises que propomos estejam mais próximas das ciganas que das amélias (aquelas que são ditas como “de verdade”). Reza a lenda que as ciganas usam seus leques tanto para afugentar maus espíritos quanto para intrigá-los com sua astúcia e mistério, com sua presença enigmática, oblíqua, cortada de viés, que se esguelha de soslaio.
É da busca de seguir desviando, como forma de existir, que surge essa publicação independente. Um caminho sinuoso que precisa constantemente ser aberto, como forma de sustentar a psicanálise em seu interesse por aquilo que escapa. O corpo de autores dessa edição tem como encontro a dissidência de nós mesmos e dos temas investigados. Muitas vezes, a necessidade de desvio se dá pelo fracasso da possibilidade de seguir caminhos já estabelecidos. Portanto, é das múltiplas falências de seguir as trilhas de uma psicanálise maior que nasce, como forma de seguir insistindo na importância de temas marginalizados ou denominados “específicos demais” para a psicanálise. Trata-se de um enfrentamento ético-político que não diz apenas dos desvios puramente teóricos, mas que também busca dar condições de dizibilidade e visibilidade para a diversidade de nossos corpos e subjetividades, bem como para nossas tecnologias de cuidado.
Assim como muitas das coisas transformadoras, essa revista também nasce de um incômodo – a constatação de uma falta de lugar. Em muitos momentos das trajetórias acadêmicas e do percurso formativo em psicanálise, os corpos que escreveram os compilados de textos aqui reunidos se depararam com um vazio: a falta de lugar para o reconhecimento de suas dissidências dentro das produções psicanalíticas “clássicas e importantes”. Não raras vezes, nos deparamos com atravessamentos da patologização, da culpabilização, da bestialização. E foram precisos muitos giros, rodopios, até piruetas para sairmos desses locais. Para entendermos que esses lugares da psicanálise já não nos cabem. Sendo assim, essa tentativa de construção busca outras possibilidades de diálogo, através das e para as psicanálises. Psicanálises que ainda estão nascendo, se reinventando, entrando no baile. Essa revista é mais que uma reunião de textos, são escritos que carregam consigo um apelo: há um caminho no desvio… E vamos confessar: esse parece ser bem mais interessante…
Como citar esse texto?
DESVIOS. Estava (a psicanálise) trôpega depois que nos conheceu: uma apresentação. Caderno Desvios Psicanalíticos, v. 1, n. 1, 2025. Disponível em: [endereço do site]. Acesso em: [data de acesso].


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