Leonardo Vinicius Oliveira
Psicólogo graduado em 2022 pelo Centro Universitário da Fundação Assis Gurgacz – FAG. Atualmente cursando pós-graduação em Psicanálise e Relações de Gênero, ética, clínica e política pelo Instituto IPPERG. Psicólogo voluntário no Projeto de Acolhimento à população LGBTQIA +, de Maringá – PR, oferecido pela gerência de diversidade, associada a secretaria de juventude, cidadania e migrantes. Orienta a sua pesquisa a temas relacionados à sexualidade, gênero e problemáticas relacionadas ao racismo e seus dispositivos.
Como citar esse texto?
OLIVEIRA, Leonardo Vinicius. A redenção de cam: um estudo visual da identidade parda no brasil. Caderno Desvios Psicanalíticos, v. 1, n. 1, 2025. Disponível em: [link]. Acesso em: [data de acesso].
Este artigo examina a construção da identidade parda no Brasil através de uma análise psicanalítica e semiótica da obra “A Redenção de Cam” de Modesto Brocos. Utilizando a semiótica francesa e as teorias psicanalíticas de Freud e Lacan, o estudo explora como representações artísticas refletem e moldam concepções sociais sobre raça e identidade. A pesquisa contextualiza a obra dentro do período pós-abolição no Brasil, quando teorias de embranquecimento racial eram proeminentes. A análise da pintura revela como ela encapsula ideologias raciais da época, representando a miscigenação como um caminho para o “progresso” racial. O artigo discute o conceito de “limbo identitário-racial” dos pardos, explorando como essa identidade é formada na intersecção de influências históricas, sociais e psicológicas. Utiliza-se o conceito lacaniano do estádio do espelho para examinar como a identidade parda é construída em relação ao Outro, frequentemente branco. A pesquisa também aborda o papel do racismo estrutural e internalizado na formação da identidade, discutindo como isso pode criar barreiras à afirmação de uma identidade positiva. Concluindo, o estudo propõe que a análise de obras como “A Redenção de Cam” oferece insights valiosos sobre a formação da identidade racial no Brasil, destacando a complexidade da experiência parda e seu papel na narrativa racial brasileira. O artigo contribui para o entendimento das dinâmicas raciais no Brasil, oferecendo uma perspectiva interdisciplinar que combina arte, psicanálise e estudos raciais.
a redenção de cam: um estudo visual da identidade parda no brasil.
A construção da identidade parda no Brasil é um tema complexo e multifacetado que merece uma análise profunda e cuidadosa. Para explorar essa questão, recorro à semiótica com ênfase a princípio, na obra de Julien Algirdas Greimas (1917-1992). Esta abordagem teórica oferece ferramentas valiosas para desvendar as camadas de significado presentes nas representações visuais e culturais que moldam nossa compreensão da identidade racial brasileira.
Como ponto de partida para esta análise, vamos fazer uso da obra “A Redenção de Cam”, uma pintura emblemática que encapsula muitas das tensões e aspirações raciais presentes na sociedade brasileira do final do século XIX e início do século XX. Esta obra serve como um microscópio através do qual podemos examinar a representação imagética da população brasileira, com foco particular nas pessoas pardas, que são oficialmente reconhecidas como parte da “população negra” segundo o Estatuto da Igualdade Racial (2021).
A semiótica, como ferramenta de análise, nos permite desvendar as camadas de significado presentes em textos visuais como “A Redenção de Cam”. Conforme Hernandes (2005) nos ensina, o primeiro passo nessa análise é reconhecer que um quadro, assim como qualquer texto, possui dois planos fundamentais: o plano de conteúdo e o plano de expressão. No plano de expressão, nossa atenção se volta para os elementos visuais concretos da obra. Isso inclui a paleta de cores escolhida pelo artista, as formas e linhas que compõem a imagem, a disposição das figuras no espaço da tela, o uso da luz e sombra, e as técnicas de pintura empregadas. Cada um desses elementos contribui para a experiência visual imediata do observador e serve como base para a construção do significado (Hernandes, 2005).
Já no plano de conteúdo, nosso objetivo é decifrar o que esses elementos visuais significam e como eles se articulam para criar sentido. É neste plano que as escolhas estéticas do artista se traduzem em narrativas, símbolos e conceitos que refletem e moldam as percepções sociais. No caso de “A Redenção de Cam”, o plano de conteúdo nos revela uma narrativa complexa sobre raça, miscigenação e as aspirações de branquitude de uma sociedade em transformação.
Para compreender plenamente o significado desta obra, é crucial explorar suas raízes mitológicas e históricas. O título da pintura faz referência direta ao mito bíblico de Cam, uma narrativa que foi frequentemente utilizada para justificar hierarquias raciais e a escravidão. Machado (2022) nos relembra os detalhes deste mito: após o dilúvio, Noé, em estado de embriaguez, foi visto nu por seu filho Cam. Este, por sua vez, contou o ocorrido aos irmãos, o que levou Noé, ao tomar conhecimento, a amaldiçoar não Cam diretamente, mas seu neto Canaã, filho de Cam, condenando-o a uma servidão eterna.
É importante notar como este mito foi distorcido e reinterpretado ao longo do tempo para servir a agendas racistas. A maldição, originalmente direcionada a Canaã, foi gradualmente associada a toda a descendência de Cam e, por extensão, à população negra africana. Esta interpretação do texto bíblico serviu como uma das muitas justificativas pseudorreligiosas para a escravidão e o racismo sistêmico.
Lotierzo (2013) nos oferece uma perspectiva valiosa sobre como essa narrativa mítica se traduziu em representações visuais concretas. O autor descreve como o povo escravizado foi frequentemente retratado como o “povo de Cam”, vestindo trapos e turbantes. Essa imagem estereotipada se tornou uma síntese visual da condição de escravizado, não apenas no Brasil, mas em diversas sociedades marcadas pela instituição da escravidão. Essa representação visual serviu como um poderoso mecanismo de reforço das hierarquias raciais, cristalizando na cultura visual a associação entre negritude e servidão.
Voltando nossa atenção para “A Redenção de Cam”, a obra nos apresenta uma cena carregada de simbolismo racial e social. À esquerda, vemos uma idosa negra com as mãos erguidas em um gesto que pode ser interpretado como gratidão ou súplica. Esta figura representa a geração mais antiga, possivelmente nascida na escravidão ou próxima a ela. No centro da composição, encontramos uma mulher negra mestiça, que podemos identificar como parda, segurando um bebê de pele clara. A postura da mulher, admirando a criança como se fosse um redentor, é particularmente significativa. À direita, completa a cena um homem branco, com uma expressão de satisfação, observando a criança que provavelmente é seu filho.
Esta composição visual é uma representação poderosa da ideologia do embranquecimento que permeia o pensamento social brasileiro da época. Como observam Kon et al. (2017), a cena ilustra a noção de que três gerações seriam suficientes para a “limpeza” racial – uma ideia que reflete as teorias raciais pseudocientíficas em voga no final do século XIX e início do século XX.
Aplicando os princípios da semiótica greimasiana a esta imagem, podemos identificar, como nos diz Morato (2008) no nível mais profundo e abstrato da análise, uma oposição fundamental entre “negritude” e “branquitude”. Esta dicotomia não se limita apenas às características físicas dos personagens retratados, mas encapsula todo um conjunto de valores sociais e culturais da época. A “negritude” é associada ao passado, à servidão e à inferioridade, enquanto a “branquitude” é apresentada como símbolo de futuro, liberdade e progresso. Expandindo esta análise, podemos interpretar os personagens do quadro como atores em uma narrativa de transformação racial e social. Nesta leitura semiótica, a família como um todo assume o papel de sujeito da narrativa. Eles estão engajados em uma busca pelo objeto de valor que é a “branquitude” – um conceito que, no contexto da obra e da sociedade brasileira da época, está intrinsecamente associado à ideia de “redenção” social e racial (Morato, 2008).
É crucial entender que esta busca não ocorre no vácuo. Ela é motivada e sancionada pela sociedade brasileira da época, que atua como destino nesta narrativa semiótica. A sociedade, imbuída de valores racistas e de uma visão eurocêntrica de progresso, estabelece a branquitude como meta desejável e como caminho para a ascensão social (Morato, 2008).
A ideologia do embranquecimento, tão vividamente representada nesta obra, teve um impacto profundo e duradouro na formação da identidade nacional brasileira. Como argumenta Munanga (2004), esta ideologia valorizava excessivamente a herança branca europeia, enquanto simultaneamente rejeitava e desvalorizava a herança negra africana. Este desequilíbrio na valorização das diferentes heranças culturais e raciais do Brasil criou uma tensão identitária que persiste até os dias atuais.
É importante notar que esta ideologia não se limitava ao campo das ideias abstratas, mas se manifestava em políticas concretas e em discursos científicos da época. Intelectuais proeminentes, como João Batista de Lacerda, defendiam ativamente a tese de que a miscigenação poderia efetivamente “branquear” a população brasileira em apenas três gerações. Esta visão não apenas reforçava a ideia de superioridade branca, mas também projetava um futuro em que o Brasil se tornaria uma nação predominantemente branca (Skidmore, 2012).
A utilização da pintura de Brocos por Lacerda para sustentar suas teorias racialistas é um exemplo claro de como a arte pode ser apropriada para reforçar ideologias. No entanto, é importante reconhecer que a obra já refletia preocupações sobre raça antes mesmo de ser utilizada por Lacerda. “A Redenção de Cam” não apenas ilustrou, mas também ajudou a consolidar a visão racialista, dando forma visual às preocupações das elites brasileiras sobre o futuro racial do país (Lotierzo, 2013).
O contexto histórico em que esta obra foi produzida é crucial para sua compreensão. O final do século XIX e início do século XX foi um período marcado pelo auge do chamado racismo científico. Esta pseudociência, que buscava classificar a humanidade em hierarquias raciais, forneceu um verniz de legitimidade acadêmica às desigualdades raciais existentes. No Brasil, essas teorias foram utilizadas para justificar políticas de branqueamento, que incluíam o incentivo à imigração europeia e a promoção da miscigenação como formas de “melhorar” a composição racial da população (Schwarcz, 1993).
É neste contexto que a mestiçagem no Brasil assume um caráter paradoxal. Por um lado, era vista pelas elites como uma estratégia de embranquecimento, um passo necessário no caminho para uma nação “mais branca”. Por outro lado, a mestiçagem também pode ser entendida como uma forma de resistência cultural, uma maneira de preservar e integrar elementos das culturas africanas e indígenas na formação da identidade brasileira (Munanga, 2019).
O uso político do termo “mestiço”, aplicado principalmente aos pardos, como destaca Munanga, reflete as complexidades e ambiguidades da classificação racial no Brasil. Souza e Damico (2021) vão além, sugerindo que o termo “mestiço” poderia, em teoria, se aplicar a todos os grupos étnicos, dado que todas as populações humanas são resultado de misturas genéticas ao longo da história. A escolha de quem é classificado como mestiço ou pardo, portanto, reflete mais uma decisão política e social do que uma realidade biológica objetiva.
Para aprofundar nossa compreensão dessas dinâmicas raciais complexas, podemos recorrer a conceitos da psicanálise. Freud (1921/2011), em sua obra “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, introduz o termo “narcisismo das pequenas diferenças”. Este conceito oferece uma ferramenta bastante interessante para entender como diferenças sutis entre grupos podem se tornar pontos de tensão e rivalidade.
O narcisismo das pequenas diferenças é particularmente relevante no contexto brasileiro, onde as categorias raciais são frequentemente fluidas e ambíguas. Este conceito nos ajuda a compreender como, mesmo em uma sociedade marcada pela miscigenação, podem surgir e persistir hierarquias raciais baseadas em distinções muitas vezes sutis de cor de pele ou traços físicos (Freud, 1921/2011)
Essa dinâmica psicológica complexa se reflete na obra “A Redenção de Cam”. A pintura não apenas ilustra a transição racial ao longo de três gerações, mas também captura as tensões e ansiedades subjacentes a esse processo. A expressão de gratidão da avó negra, o olhar de admiração da mãe parda para o bebê branco, e o sorriso satisfeito do pai branco – todos esses elementos visuais podem ser interpretados como manifestações do narcisismo das pequenas diferenças em ação. O que nos levará a pensar nos caminhos percorridos pelos pardos para que sua identidade seja construída.
a identidade de cam
A construção da identidade parda no Brasil é um tema de notável complexidade que merece uma análise aprofundada. Para explorar essa questão, recorremos às teorias psicanalíticas, com ênfase nos trabalhos de Jacques Lacan e Sigmund Freud, bem como às contribuições de autores negros de grande relevância, como Frantz Fanon e Isildinha Baptista Nogueira. O objetivo é examinar como essa identidade racial se forma e como as representações sociais históricas têm posicionado os pardos como uma espécie de “ponte” entre as populações negra e branca.
Inicialmente, é fundamental refletir sobre o conceito de identidade. Ciampa (1999) propõe que a identidade é um elemento dinâmico e transformável, moldado e concretizado através das relações sociais que o indivíduo estabelece. Isso implica que a identidade não é uma característica fixa, mas um processo contínuo de metamorfose, que ocorre tanto consciente quanto inconscientemente. Kuper (2002) complementa essa visão ao afirmar que a identidade é uma questão pessoal que se vivencia e se forma através das interações com os outros. Hall (2006) nos lembra que um único indivíduo pode abrigar múltiplas identidades, frequentemente contraditórias, que o conduzem em direções diversas, resultando em deslocamentos contínuos.
A questão da identidade e da identificação tem sido um tema central na psicanálise desde Freud, ganhando novos contornos com as contribuições de Jacques Lacan. Na perspectiva psicanalítica, a identidade não é concebida como uma essência fixa ou imutável, mas como um processo dinâmico constituído através de identificações. Esse processo ocorre fundamentalmente no campo do Outro, mediado pela linguagem e pela fala (Starnino, 2016).
A identificação, segundo Freud (2011), é “a mais antiga manifestação de uma ligação afetiva a outra pessoa”. Lacan, por sua vez, reformula essa noção em termos de “identificação significante”, enfatizando o papel crucial da linguagem na constituição do sujeito. Para Lacan, o sujeito emerge como efeito da cadeia significante, e sua identidade é formada através das identificações com certos significantes privilegiados (Lacan, 1998).
Da mesma forma, na perspectiva lacaniana, a identidade não é algo fixo ou essencial, mas um processo contínuo de identificações significantes (Lacan, 2003). No caso da identidade parda, podemos observar como ela se constroi através de uma complexa rede de identificações, muitas vezes contraditórias, com elementos tanto da herança africana quanto da europeia. Um conceito fundamental nessa discussão é o de “traço unário”, que Lacan desenvolve a partir do “einziger Zug” freudiano. O traço unário é concebido como o elemento mais rudimentar do significante, a partir do qual as identificações se tornam possíveis. É a “diferença pura” que permite a articulação significante e, consequentemente, a constituição do sujeito (Kuri, 2010).
A noção de “traço unário” de Lacan (2003) pode ser lido como a diferença fundamental que permite a articulação significante, pode ser visto na forma como indivíduos pardos navegam entre diferentes marcadores raciais, identificando-se com certos traços e distanciando-se de outros. A própria categoria “pardo” funciona como um significante que articula essa posição intermediária.
Ao prosseguir com a questão da inscrição psíquica da identidade, encontramos em Fanon (2008) elementos fundamentais para a compreensão da identidade negra. Em sua obra seminal “Pele Negra, Máscaras Brancas”, Fanon oferece uma análise dos mecanismos psicológicos e sociais que sustentam o racismo e o colonialismo. Dois conceitos cruciais emergem de sua análise: a negação da individualidade dos sujeitos negros e sua consequente exclusão da dialética do Eu e do Outro. Fanon (1952) argumenta que o racismo força um grupo de pessoas a sair da relação dialética entre o Eu e o Outro, uma relação que é a base da vida ética. Esta exclusão resulta em uma forma de alienação, onde o sujeito negro é privado da possibilidade de um reconhecimento mútuo e igualitário.
Nesse mesmo caminho, Freud (1914/2010) aborda o conceito do “Eu ideal”, que se forma a partir das projeções das figuras parentais. A criança, em sua fase de apaixonamento edípico, abdica de qualquer forma de consciência crítica para se adequar a essa imagem idealizada dos pais. Isso evidencia que a constituição do sujeito depende, em certo grau, de sua relação com o outro, um tema também explorado por Lacan em sua obra.
Para falar dessa formação subjetiva, trazemos novamente Lacan (1949/1998) que aborda o conceito do estádio do espelho, um marco no desenvolvimento psíquico que simboliza a formação do ego. No contexto da psicanálise lacaniana, a constituição do sujeito é um processo complexo que envolve alienação e separação. Bruder e Brauer (2007) discutem como a alienação é intensificada para o sujeito negro devido às representações sociais negativas associadas à cor da pele. Nogueira (1998) também analisa que o racismo e as significações sociais do corpo negro afetam profundamente a constituição do sujeito negro. Durante o estádio do espelho, o sujeito negro é confrontado com significantes que o alienam de sua própria imagem, promovendo uma identificação com o ideal de brancura.
Segato (2021) traz questões importantes sobre esse ideal de brancura ao falar sobre o conceito de colonialidade nos dizendo que este se refere a um padrão de poder que, embora tenha emergido do colonialismo moderno, transcende os limites temporais da dominação colonial formal. A autora aplica e expande esse conceito, entrelaçando-o com a noção psicanalítica de forclusão. Neste contexto, a forclusão opera como um mecanismo psicossocial que invisibiliza certos sujeitos e nega sua importância na formação da sociedade e da subjetividade. O exemplo mais contundente apresentado por Segato é o da babá ou ama de leite negra na sociedade brasileira. Essa figura, embora fundamental na criação e formação psíquica de gerações de brasileiros brancos, é sistematicamente apagada da consciência individual e coletiva, criando o que a autora chama de “dupla maternidade forcluída”.
Importante olhar para esse conceito de “dupla maternidade forcluída” para analisar a complexa dinâmica racial e psíquica na formação da identidade brasileira. A figura da babá ou ama de leite negra, embora crucial na criação e desenvolvimento emocional de gerações de brasileiros brancos, é sistematicamente apagada da consciência individual e coletiva. Este processo de forclusão – um apagamento mais profundo que o simples esquecimento – revela as contradições inerentes à narrativa de mestiçagem harmoniosa, expondo como a sociedade brasileira simultaneamente depende e nega o papel fundamental das mulheres negras na construção de sua identidade nacional. Assim, a “dupla maternidade forcluída” torna-se um poderoso instrumento analítico para compreender as persistentes desigualdades raciais e os mecanismos psicossociais que perpetuam a colonialidade no Brasil contemporâneo (Segato, 2021).
Aqui pode ser interessante abordar mestiçagem, trazido anteriormente. O termo “mestiço”, que inclui os pardos, foi utilizado historicamente não apenas como uma descrição biológica, mas também como uma construção política. Os autores sugerem que, embora os pardos façam parte da maioria negra, eles ocupam uma posição ambígua dentro da sociedade, sendo muitas vezes exaltados no discurso da democracia racial, mas também sujeitos ao racismo e à discriminação (Gonzalez, 1988; Munanga, 2019). Para abordar como a mestiçagem afeta sujeitos pardos Gomes (2019) introduz o conceito de “limbo identitário-racial” para descrever esse impacto. Esse conceito refere-se à posição ambígua ocupada pelos pardos, que são produtos de um complexo processo histórico de miscigenação. Os pardos são descritos como estando em um estado de “negro demais para ser branco, branco demais para ser negro”, o que resulta em uma falta de identidade racial objetiva.
Podemos, nesse sentido, incluir também uma discussão importante sobre o fenômeno do colorismo ou pigmentocracia, que surge como mais uma forma de violência racial. O colorismo emerge uma valorização do negro de pele clara em detrimento do negro de pele mais escura, com os traços fenotípicos determinando o valor social do indivíduo (Silva e Silva, 2017). Esse fenômeno foi impulsionado por estupros institucionais de mulheres negras e indígenas, bem como por políticas imigratórias fundamentadas em teorias eugenistas. Esse histórico criou um grupo que, apesar de racializado, muitas vezes não se identifica como negro ou indígena e, portanto, não se sente no direito de abordar questões de racismo (Nascimento, 1978).
a tela como espelho: representação artística e a formação da identidade parda
A obra “A Redenção de Cam”, pintada por Modesto Brocos em 1895, oferece um fascinante ponto de partida para explorar como a arte visual pode não apenas refletir, mas também moldar ativamente as concepções sociais, particularmente no que tange à formação da complexa identidade parda no Brasil. O quadro de Brocos, criado no turbulento período pós-abolição, encapsula de maneira magistral as dinâmicas raciais que permeavam a sociedade brasileira da época. A composição, cuidadosamente estruturada, nos convida a uma jornada visual que espelha as teorias raciais então em voga, começando pela figura à esquerda da tela.
Neste canto, deparamo-nos com uma idosa negra, suas mãos erguidas em um gesto que sugere uma mistura de gratidão e súplica. Esta figura evocativa remete ao que Lotierzo (2013) astutamente denomina como o “povo de Cam”, uma alusão ao mito bíblico que foi perversamente distorcido para justificar séculos de escravidão. A presença desta anciã na composição não é meramente decorativa; ela simboliza o peso do passado escravocrata e a suposta “maldição” que, segundo a narrativa da época, as gerações subsequentes estariam destinadas a superar.
Deslocando nosso olhar para o centro da obra, encontramos o elemento crucial para nossa análise: uma jovem mulher parda. Ela segura nos braços um bebê de pele notavelmente clara, seu olhar fixo na criança, transmitindo uma complexa mistura de admiração, esperança e, talvez, um toque de apreensão. Esta personagem central encarna a quintessência da complexidade da identidade parda no Brasil. Sua posição intermediária na cena não é acidental; ela reflete com precisão o que Gomes (2019) perspicazmente denomina de “limbo identitário-racial”. Esta mulher se encontra suspensa entre dois mundos: nem totalmente identificada com sua ancestralidade negra, representada pela idosa ao seu lado, nem plenamente aceita no mundo branco, simbolizado pelo homem à direita e pelo bebê em seus braços.
A representação da mulher negra mais velha na obra de Brocos nos remete às reflexões de Frantz Fanon (2008) sobre a negação da individualidade imposta aos negros pelo racismo sistêmico. Nesta pintura, ela não é retratada como um indivíduo único, com sua própria história e complexidade, mas sim como um símbolo genérico da negritude. Esta despersonalização visual reforça a tese de Fanon de que o racismo opera não apenas no nível social, mas também no psicológico, negando aos negros sua complexidade e singularidade individual.
A expressão da jovem mulher parda, ao contemplar seu filho de pele clara, pode ser interpretada através da lente psicanalítica como uma manifestação do que Sigmund Freud (1914/2010) denominou “Eu ideal”. Este conceito freudiano se refere a uma projeção das aspirações sociais impostas sobre o indivíduo. No contexto do Brasil esse ideal era inequivocamente branco, refletindo as teorias raciais eugenistas em voga. Esta leitura se alinha de maneira intrigante com o conceito lacaniano do estádio do espelho, onde o sujeito começa a se constituir na linguagem e no desejo do Outro (Lacan, 1973/1988). Neste caso, o Outro é representado pela sociedade brasileira e suas expectativas de embranquecimento.
À direita da composição, observamos um homem branco que contempla a cena com evidente satisfação. Sua presença não é meramente complementar; ele personifica o ideal europeu e o futuro almejado pela ideologia do embranquecimento que permeia o pensamento intelectual da época. Seu sorriso de aprovação parece endossar o processo de “clareamento” racial em curso, uma ideia que encontrava fervorosos defensores entre os intelectuais brasileiros. Um exemplo notável é João Batista de Lacerda, que argumentava com convicção que a miscigenação poderia efetivamente “branquear” a população brasileira em apenas três gerações (Skidmore, 2012).
O bebê, elemento central e catalisador da composição, simboliza a “redenção” prometida pelo título provocativo da obra. Sua pele clara não é apenas um detalhe; é a materialização visual do embranquecimento, a suposta libertação da “maldição de Cam” que pesava sobre a população afrodescendente. Esta figura infantil, aparentemente inocente, na verdade encarna as esperanças e os medos de uma sociedade obcecada com a questão racial. Ela reflete o que Kon et al. (2017) descrevem como a ideologia da “limpeza” racial através das gerações, um conceito tão perturbador quanto revelador das ansiedades sociais da época.
A disposição cuidadosamente orquestrada das figuras e a narrativa implícita do quadro sugerem uma progressão linear da negritude para a branquitude, sem oferecer espaço para síntese ou reconhecimento mútuo. Esta estrutura visual ecoa a exclusão dos negros da dialética do Eu e do Outro descrita por Fanon, onde não há lugar para uma identidade negra afirmativa e reconhecida em seus próprios termos.
Neste contexto de alienação racial, Bruder e Brauer (2007) argumentam que o sujeito negro – e por extensão, o pardo – enfrenta uma alienação intensificada durante o processo de formação da identidade. Este indivíduo se vê confrontado com significantes que não correspondem à sua realidade interna, criando um descompasso entre a autoimagem e as expectativas sociais impostas.
A jovem mulher parda na pintura de Brocos emerge como uma poderosa representação deste conflito interno. Sua admiração pelo filho de pele clara não é apenas um gesto maternal; é um símbolo visual de uma identificação profunda e problemática com o ideal de brancura. Este processo de alienação, como descrito por Isildinha Baptista Nogueira (1998), tem um impacto profundo e duradouro na constituição do sujeito negro. A dinâmica retratada na pintura ilustra vividamente o que Kabengele Munanga (2019) denomina “sonho de realizar o passing”, um desejo de transição racial que frequentemente resulta no enfraquecimento da solidariedade com outros indivíduos negros.
As reflexões de Fanon (2008) sobre a identidade negra e suas múltiplas formas de alienação oferecem uma lente adicional para interpretar a obra de Brocos. Para Fanon, a alienação não é um fenômeno unidimensional, mas sim um processo multifacetado que abrange aspectos culturais, psicológicos, linguísticos e sociais. Ele argumenta que o colonialismo impõe uma ruptura profunda na psique do colonizado, forçando o negro a adotar a cultura do colonizador e resultando na internalização de estereótipos negativos e valores racistas.
A linguagem desempenha um papel crucial neste processo de alienação. Falar a língua do colonizador não é um ato neutro; significa absorver sua visão de mundo, suas hierarquias e seus preconceitos. Esta alienação linguística se estende ao corpo e à identidade, levando o sujeito negro a se ver através do olhar do branco e a adotar uma “máscara branca” como estratégia de sobrevivência no mundo colonial (Fanon, 2008) Na pintura de Brocos, podemos interpretar a postura e a expressão da mulher parda como uma manifestação visual desta “máscara branca”, uma tentativa de se conformar às expectativas de uma sociedade que valoriza a branquitude.
Ao examinar “A Redenção de Cam” sob esta luz crítica, torna-se evidente que a obra não apenas reflete passivamente as teorias raciais da época, mas atua como um agente ativo na construção e perpetuação de mitos raciais. Sua utilização por Lacerda para ilustrar teorias racialistas em um congresso internacional demonstra o poder da arte na legitimação de ideologias sociais. A obra transcende, assim, seu status de mero produto cultural de seu tempo, tornando-se um instrumento na propagação e reforço de concepções raciais problemáticas (Skidmore, 2012).
Contudo, uma leitura contemporânea da obra nos permite vislumbrar nuances adicionais. Como sugerem Souza e Damico (2021), a mestiçagem, incluindo a experiência dos pardos, pode ser interpretada não apenas como uma tecnologia de embranquecimento, mas também como uma estratégia de resistência cultural. Sob esta perspectiva, a figura da mulher parda no quadro de Brocos pode ser reinterpretada como um símbolo de resiliência e complexidade identitária, desafiando narrativas simplistas sobre raça no Brasil.
conclusão
A análise da obra “A Redenção de Cam” de Modesto Brocos, juntamente com as teorias psicanalíticas e sociológicas apresentadas, oferece uma perspectiva multifacetada sobre a complexa construção da identidade parda no Brasil. Este estudo revela como as representações artísticas, as teorias raciais e os processos psicológicos se entrelaçam na formação de uma identidade racial que é, ao mesmo tempo, produto e reflexo das dinâmicas sociais brasileiras.
A pintura de Brocos, longe de ser apenas uma representação passiva das ideias raciais de sua época, emerge como um agente ativo na construção e perpetuação de mitos raciais. Sua composição cuidadosamente estruturada, com a progressão visual da negritude para a branquitude ao longo de três gerações, encapsula de forma poderosa a ideologia do embranquecimento que permeava o pensamento intelectual brasileiro no final do século XIX e início do XX. A utilização desta obra por João Batista de Lacerda para ilustrar teorias racialistas em um contexto internacional demonstra o poder da arte na legitimação e propagação de ideologias sociais.
A aplicação de conceitos psicanalíticos, como o “Eu ideal” de Freud e o “estádio do espelho” de Lacan, à análise da obra e da formação da identidade parda, revela os mecanismos psicológicos subjacentes à internalização de ideais raciais. A figura da jovem mulher parda na pintura, com seu olhar fixo no bebê de pele clara, simboliza não apenas uma aspiração individual, mas um complexo processo de identificação com um ideal de branquitude socialmente imposto. Este processo, como argumentado por Nogueira (1998) e Bruder e Brauer (2007), resulta em uma alienação intensificada para o sujeito negro e pardo, que se vê confrontado com significantes que não correspondem à sua realidade interna.
As contribuições de Frantz Fanon sobre a negação da individualidade dos sujeitos negros e sua exclusão da dialética do Eu e do Outro oferecem uma perspectiva crucial para compreender as raízes psicológicas do racismo e seu impacto na formação da identidade. A representação da mulher negra mais velha na obra de Brocos, despersonalizada e reduzida a um símbolo genérico da negritude, ilustra vividamente este processo de negação da individualidade descrito por Fanon.
O conceito de “limbo identitário-racial” proposto por Gomes (2019) captura de forma precisa a posição ambígua ocupada pelos pardos na sociedade brasileira. Esta ambiguidade, refletida na posição central da mulher parda na pintura de Brocos, revela as tensões e contradições inerentes à construção da identidade parda. Nem totalmente identificada com sua ancestralidade negra, nem plenamente aceita no mundo branco, a figura parda encarna o que Munanga (2019) descreve como o “sonho de realizar o passing”, um desejo de transição racial que frequentemente resulta no enfraquecimento da solidariedade com outros indivíduos negros.
A análise do fenômeno do colorismo ou pigmentocracia, como discutido por Silva e Silva (2017), adiciona uma camada adicional de complexidade à compreensão da formação da identidade parda. A valorização do negro de pele clara em detrimento do negro de pele mais escura, com os traços fenotípicos determinando o valor social do indivíduo, cria divisões internas dentro da comunidade negra e complica ainda mais o processo de formação identitária para os pardos.
O conceito de “dupla maternidade forcluída” proposto por Segato (2021) oferece uma perspectiva inovadora para compreender as contradições inerentes à narrativa de mestiçagem harmoniosa no Brasil. O apagamento sistemático da figura da babá ou ama de leite negra da consciência individual e coletiva revela os mecanismos psicossociais que perpetuam a colonialidade no Brasil contemporâneo, afetando profundamente a formação da identidade nacional e, por extensão, da identidade parda.
Contudo, como sugerem Souza e Damico (2021), é importante reconhecer que a mestiçagem e a experiência parda não podem ser reduzidas apenas a uma tecnologia de embranquecimento. Elas também podem ser interpretadas como estratégias de resistência cultural, desafiando narrativas simplistas sobre raça no Brasil. Esta perspectiva nos convida a reinterpretar a figura da mulher parda na obra de Brocos não apenas como um símbolo de alienação, mas também como um emblema de resiliência e complexidade identitária.
Em conclusão, este estudo demonstra que a construção da identidade parda no Brasil é um processo complexo e multifacetado, profundamente enraizado na história do país, nas suas representações artísticas e nas suas dinâmicas psicossociais. A análise da obra “A Redenção de Cam” através das lentes da psicanálise, da sociologia e dos estudos raciais revela como as ideologias raciais são internalizadas e reproduzidas, mas também como são contestadas e ressignificadas.
Por fim, este estudo ressalta a importância de uma abordagem interdisciplinar na compreensão das questões raciais, combinando psicanálise, sociologia, história e estudos culturais. Somente através de uma perspectiva abrangente podemos começar a desvendar as complexidades da identidade racial no Brasil e trabalhar em direção a uma sociedade mais equitativa e inclusiva.
Referências
Bruder, M. C. R., & Brauer, J. F. (2007). A constituição do sujeito na psicanálise lacaniana: Impasses na separação. Psicologia em Estudo, 12(3), 513-521.
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