Juni Maria M. Cavalcanti [1]
corpo navegante entre fluxos mutáveis na/para além das identidades. amante da literatura, natureza e cachorros – observador de pássaros (passarinheire) – transmasculine – branco – nordestino. Psicólogo pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Pós-graduado com especialização em Psicanálise e Relações de gênero (FAUSP/IPPERG). Integra a Articulação Regional de Psicólogues trans (ARPTrans-PE). Atual Vice presidente da Comissão de Orientação e Fiscalização (COF) no Conselho Regional de Psicologia de Pernambuco (CRP-PE) como Conselheiro Titular. Estuda sobre gêneros e sexualidades, relações étnicos-raciais e não-monogamia. me interesso por escutas éticas e sensíveis no campo psicanalítico. junicanti.psi@gmail.com
Como citar esse texto?
CAVALCANTI, Juni Maria M. “Eu sou a criatura que vos convida”: por uma psicanálise não-mortífera. Caderno Desvios Psicanalíticos, v. 1, n. 1, 2025. Disponível em: [link]. Acesso em: [data de acesso]
O artigo aborda críticas referentes à teoria psicanalítica eurocentrada e normativa, no que diz respeito às escutas clínicas de pessoas gênero-dissidentes. Inicialmente, o autor discute a importância da ética psicanalítica, com base nos referenciais teóricos dos autores Sándor Ferenczi e Donald Winnicott, apresentando conceitos como tato psicológico e holding. Em seguida, explora as possibilidades da desidentificação com a cisheteronormatividade e suas reverberações. Considerando as posturas clínicas e éticas de analistas, apresenta uma narrativa clínica para fomentar a discussão. Por fim traz como proposta a construção coletiva de uma psicanálise não-mortífera, visando reflexões sobre novos caminhos para uma psicanálise vitalizadora. Assim como explora as potencialidades que as teorias psicanalíticas podem oferecer nas práticas clínicas.
introdução
Este artigo surge a partir das inquietações advindas da minha graduação em psicologia e do percurso trilhado na psicanálise, em que a presença de discursos patologizantes sobre pessoas gênero-dissidentes em espaços de análise e formações psicanalíticas nas escolas tradicionais são recorrentes. Através, sobretudo, de uma psicanálise europeia, hegemônica e normativa, tais posturas são reproduzidas de formas violentas e traumatizantes na cena analítica diante de uma imposição cisheteronormativa.
Ao refletir acerca de uma “psicanálise mortífera”, compreendo que esta manifesta-se enquanto teoria e prática psicanalítica utilizando de palavras e gestos que violentam e aniquilam corpos dissidentes em vida. Essa sinfonia de morte, que pode ser considerada harmônica por psicanalistas brancos e cisheteronormativos, é composta de discursos transfóbicos, racistas e capacitistas que permeiam a clínica e espaços formativos. Assim como, os silêncios frente às violências sofridas trazidas por analisandas/es/os2 no processo analítico.
Paul B. Preciado, em seu livro “Eu sou o monstro que vos fala: Relatório para uma academia de psicanalistas” (2022), traz análises pertinentes à psicanálise freudiana e lacaniana. A partir de suas reflexões, busquei explorar outras possibilidades férteis e teóricos dentro das teorias psicanalíticas.
Sua denúncia das violências epistemológicas relacionadas à diferença sexual, convoca psicanalistas para o início de uma transição, desenvolvendo processos críticos de despatriarcalização, deseterossexualização e descolonização da psicanálise – como discurso, narrativa e instituição e prática clínica, rumo à construção de saídas e um novo paradigma (Preciado, 2022). Tais observações me impulsionaram a escrever buscando a criação coletiva de uma psicanálise não-mortífera, buscando campos de vitalidade no fazer clínico.
Em meu horizonte teórico e prático, dialogo com as psicanálises, arriscando-me a explorar suas teorias, mas sem me restringir a elas, visto que se faz necessário criticar, revisar e até destruir algumas formulações. A fim de reinventarmos outros modos de escutas e práticas clínicas inseridas no território brasileiro, faço o convite para refletir comigo sobre psicanálises éticas, inventivas e sensíveis.
Neste texto, três perguntas guiaram minhas inquietações, sendo elas: 1. Como construir escutas clínicas fundamentadas em posturas éticas dentro das teorias psicanalíticas? 2. Como pensar numa desidentificação com a cisheteronormatividade enquanto esta é predominante nos espaços clínicos, sobretudo entre psicanalistas brancos e normativos? 3. De que modo as falas desses analistas, pautadas em discursos patologizantes, influenciam nas análises de pessoas gênero-dissidentes?
Para compor as críticas e tensionamentos, este artigo se divide em três tópicos. Num primeiro momento, discuto a importância da ética na prática clínica da psicanálise, a partir dos referenciais teóricos ferencziano e winnicottiano, introduzindo conceitos como tato psicológico e holding. Estes podem contribuir para pensarmos a criação de um setting clínico3 inventivo, sensível e potente, onde a escuta não seja pautada na reprodução de violências e, consequentemente, se torne mortífera.
No segundo tópico, exploro a desidentificação com a cisheteronormatividade no contexto psicanalítico e suas implicações nas subjetividades de quem se encontra no processo de análise, considerando as posturas clínicas e éticas das/dês/dos analistas. A desidentificação conceituada por mim é compreendida como a possibilidade de criação de novos modos de subjetivação dentro do prisma múltiplo das transgeneridades, travestilidades e não-binariedades, afastando-se da cisheteronormatividade adoecedora.
Essas escutas mortíferas não apenas reproduzem violências e retraumatizações no setting clínico, mas também legitimam e perpetuam os discursos patologizantes. Desse modo, reforçam estereótipos e normas opressivas presentes numa sociedade transfóbica. Nesse cenário, é essencial ir no sentido contrário ao “peso mortífero da violência normalizadora” (Mombaça, 2021, p. 78). Assim, pergunto: De que formas podemos exercer uma prática clínica pautada numa psicanálise não-mortífera e, portanto, vitalizadora?
Por fim, proponho uma análise crítica à psicanálise hegemônica e normativa, que tende a se apresentar como aniquiladora das diferenças. O objetivo é buscar caminhos para a construção coletiva de uma psicanálise não-mortífera, explorando as potencialidades que as teorias psicanalíticas oferecem.
entre Ferenczi e Winnicott: em busca de escutas e posturas éticas
Para discutirmos sobre a ética na psicanálise, é necessário refletir sobre como construí-la enquanto uma prática junto a pessoas gênero-dissidentes que buscam análise. Acredito que refletir a partir de uma psicanálise vitalizadora, pressupondo o delineamento de princípios éticos, nos ajude a entender de onde podemos partir para a sustentação teórica das nossas escutas. De acordo com Ricardo Goldenberg “o discurso do analista funda essa responsabilidade ética pela própria palavra, mas não de um único modo. O modo como cada analista especifica a ética de seu discurso configura o seu estilo’ (1999, parágrafo 4).
Durante meu percurso na universidade, já considerava a ética enquanto um fio invisível e condutor que permeia as escutas clínicas, apresentando-se na construção de manejos frente às demandas trazidas de cada paciente. Tais reflexões acerca das minhas próprias posturas éticas e de psicólogas/os/ues e psicanalistas, volta a ecoar na leitura do livro Psicologia Suja (2023) no qual a autora Sofia Favero (2023, p. 137, grifos meus) questiona: “Em que universo vivem os profissionais da ética (não vou dizer da saúde, nem do cuidado, considero o que fazemos um exercício de subjetivação)?
Logo, a partir dessa provocação, como as éticas que exercemos guiam ou distorcem nossas escutas? De que formas as influências das nossas falas, interpretações, interrupções, indagações, expressões e tantos outros gestos possíveis no setting clínico atravessam o nosso fazer clínico e a relação com as/ês/os pacientes? Observando que, o espaço no qual psicanalistas atuam dependerá de como cada um concebe os meios e fins da psicanálise, a direção do tratamento de seus pacientes, tendo influências de suas éticas, como refletido por Goldenberg (1999).
Nesse contexto, a partir das técnicas e matrizes psicanalíticas, apresento os conceitos de tato psicológico e holding, dos autores Sándor Ferenczi (1928) e Donald Winnicott (1940), respectivamente, em diálogo com a função vitalizadora4 do analista com base nessas contribuições teóricas. Esses conceitos são fundamentais para discutirmos sobre escutas vitalizadoras e possibilitar reflexões acerca das práxis psicanalítica, a fim de construirmos o que proponho enquanto uma psicanálise não-mortífera.
O tato psicológico refere-se à capacidade de “sentir com” analisando, sabendo quando e como verbalizar algo, além de reconhecer as reações diante do que é trazido. Envolvendo a presença do silêncio e o estar no lugar de espera para que novas associações sejam formadas, identificando também os momentos em que o silêncio pode ser torturante ou dispensável (Ferenczi, 1928/2011). Segundo o autor,
É necessário, como uma tira elástica, ceder às tendências do paciente mas sem abandonar a tração na direção de suas próprias opiniões, enquanto a falta de consistência de uma ou outra dessas posições não estiver plenamente aprovada. (Ferenczi, 1928, p. 32).
Relaciono a elasticidade com a flexibilidade, das possibilidades de um “ir até”, ciente da abertura para o retorno da palavra lançada, implicando no reconhecimento de possíveis erros e também para que não haja uma presunção da suposta “máxima do saber do analista” em nossas práticas clínicas. Atentar-se a essa tira elástica e sua maleabilidade faz com que outros caminhos sejam traçados e para que possamos evitar uma fixidez, por exemplo, numa hipótese clínica.
Ainda sobre esse conceito, de acordo com César e Ribeiro,
O tato passa a ser central na fundação de um estilo clínico peculiar, abrindo caminho para o encontro de sensibilidades e razões criativas, não intelectualizadas, e sim ancoradas nas potencialidades de vigor do encontro. Importante destacar que tato difere de empatia – em alemão, Einfuhlung –, que significa “sentir o outro dentro de si”, estar apto a “sentircom”, como se fosse o outro, mas sem se misturar a ele, mantendo-sediferenciado. (César & Ribeiro, 2023, p. 33).
Já no texto intitulado “Princípio de Relaxamento e Neocatarse” (1930), Ferenczi traz sobre a possibilidade de haver meios de demonstrações aos pacientes acerca da nossa atitude amistosamente benevolente durante a análise. Contudo, sem perder de vista a analítica do material transferencial e não cairmos no erro de psicanalistas que tratam neuróticos seja com severidade, seja com amores fingidos, não estando alinhados com o modo analítico, ou seja, com uma total sinceridade no manejo. (Ferenczi, 1930/2011).
Além do tato psicológico, o conceito de holding conceituado por Donald Winnicott traz outras pistas para esse fazer ético na clínica psicanalítica dialogando com o sentir com. Para o autor, a função do holding se relaciona com a sustentação que o analista oferece aos seus pacientes e tal prática ganha forma na transmissão das palavras endereçadas, no momento propício, acerca do que o analista compreende das ansiedades trazidas aos seus pacientes. (Winnicott, 1963d/1983). Conforme Alexandre Almeida,
Ainda que o termo holding seja frequentemente usado de maneira aleatória e incorreta, ele nada mais é que a rede de cuidados de que um indivíduo necessita para atingir os processos de integração (psíquica e corporal), saindo do estado de “dependência absoluta”, passando pela “dependência relativa”, até chegar “rumo à independência”, pois, para Winnicott, nós nunca seremos totalmente independentes – sempre iremos precisar de alguma coisa ou de alguém. Assim, um psicanalista que se diz winnicottiano não vive fazendo holding às cegas. Tudo dependerá do enquadre e do nível de maturidade em que se encontra o paciente. (Almeida, 2023, p. 102)
Na clínica winnicottiana, a confiabilidade e o manejo do setting clínico, juntamente com o conceito de holding, são essenciais para o trabalho analítico. Assim, o cuidado ético se manifesta ao acolher aqueles que buscam um espaço de confiança para compartilhar seus sofrimentos, dúvidas e vivências. Conforme a autora Elsa Dias,
(…) nem tudo pode ser construído pela interpretação e uma dessas coisas fundamentais é a confiabilidade do setting. Esse é o pano de fundo de toda análise. Nada de muito útil pode ser feito, assinala Winnicott, se não obtivermos a cooperação inconsciente do paciente e ela só acontece se o terapeuta se der ao trabalho de encarregar-se ativamente do caso, mantendo a confiabilidade (Dias, 2023, p. 128)
Assim, é essencial considerar a presença de analistas que exerçam a elasticidade da técnica psicanalítica fazendo a revisão das práxis, reinventando o dito modelo clínico “psicanalítico tradicional”. Tais manejos transferenciais empreendidos para além de uma rigidez, evitando a limitação apenas às teorias, interpretações e discursos engendrados, podem propiciar um espaço de escuta ética e sensível para as escutas de pessoas gênero-dissidentes. De acordo com César e Ribeiro (2023),
Para que a análise seja um acontecimento humano, é preciso tanto nós mesmos quanto nossos analisandos façamos uso da palavra simples e viva, possível caso emerja a partir da nossa própria voz, de nossas próprias palavras, e não determinada pelos dogmas, prescrições analíticas, filiação a técnicas ou escolas analíticas. (César & Ribeiro, 2023, p. 194).
Nesse cenário, o conceito de função vitalizadora do analista em diálogo com os conceitos de tato psicológico e holding nos ajuda a refletir na primeira pergunta que levantei ao escrever esse artigo: “Como construir escutas clínicas fundamentadas em posturas éticas dentro das teorias psicanalíticas?”
O papel vitalizador do analista consiste na inclusão da acolhida e o possibilitar que emerja os aspectos vitalizados do paciente ao acolher o “morto”, as áreas primitivas, daquilo que não se pode ser representável, dos afetos depressivos e das tendências desistência frente à vida (César & Ribeiro, 2023). Ainda para as autoras, a função vitalizadora solicita que nós estejamos “(…) aliados à palavra e ao pensamento vivos e à recepção do corpo do outro que precisa de cuidado – o acontecimento da presença num campo de mutualidade” (2023, p. 52).
Ao persistirmos na criação de atmosferas e ambientes férteis e vivos que nasçam no encontro analítico, podemos escutar a articulação dos sentidos, dos afetos vivos e mortos, da linguagem e dos corpos em conjunto na análise de forma ética e sensível.
Pensar, então, em escutas que não estejam a serviço de normas determinantes, prescritivas e taxativas e propiciar um setting clínico no qual cada pessoa possa fabricar suas inventividades me parece ser fundamental para essa construção. Consoante à crítica de Paul Preciado (2022),
A psicanálise precisa entrar em um processo crítico de retroalimentação com as tradições de resistência política transfeministas se quiser deixar de ser uma tecnologia de normalização heteropatriarcal e de legitimação da violência necropolítica para se tornar uma tecnologia de invenção de subjetividades dissidentes diante da norma. (Preciado, 2022, p. 89)
Portanto, atuar a partir de aporte teórico alinhado a fins de comprovação, validação ou sustentação da teoria psicanalítica na prática do fazer clínico pode acarretar numa limitação da escuta. Prender-se a essa lógica nociva traz a dispersão de um olhar ético, clínico e político, em que os manejos transferenciais quanto às demandas, queixas e sofrimentos partem de um lugar que pode ser considerado enquanto não-ético e mortífero.
Tais espaços são constituídos, por exemplo, a partir de discursos que sustentam a patologização das identidades de gênero, na imposição de normas binárias, no uso inadequado de terminologias, no desrespeito dos pronomes autodeterminados e da sexualidade autodeclarada, assim como também em julgamentos baseados em valores morais e crenças pessoais.
Partindo desses horizontes teóricos apresentados anteriormente podemos apostar nas possibilidades de implicações em escutas que não se baseiam no endereçamento de falas violentas e mortíferas. Dessa maneira, quem sabe, podemos começar a criar redes de escutas sensíveis.
Para refletirmos sobre os conceitos abordados neste tópico, apresento a seguir uma narrativa clínica, a fim fomentar a nossa discussão, a partir de uma experiência vivenciada por mim juntamente com uma paciente que se apresenta enquanto uma pessoa transfeminina não binária.
travessias e deslocamentos de Luna em suas estações
Luna me procura sabendo que sou uma pessoa trans. Antes de iniciar o acompanhamento comigo, ela fazia terapia com uma psicóloga cis e traz que está buscando alguém que, nas suas palavras, tenha entendimento da “nossa vivência trans”. Inicialmente, assim como faço com outros pacientes trans, pergunto como ela se sente em relação à transgeneridade que constrói para si e ressalto que, apesar de ser uma pessoa trans, temos experiências diferentes. Ela assente e compartilha sua história.
Luna, assim como outras/ês/os pacientes que se entendem como pessoas trans, me busca devido a essa transferência inicial enquanto pessoa gênero-dissidente. Quando faço essa pergunta, a resposta de quem chega é que reconhecem as diferenças, mas sentem que as chances de sofrer violências de minha parte em relação às suas identidades de gênero são baixas e sentem que podem falar sobre outras questões além dessas vivências.
Importante ressaltar que no caso dessa narrativa clínica, irei trazer elementos que estão relacionados a possibilidade de uma desidentificação com a cisheteronormatividade e questões que dialogam com o artigo, sendo recortes de sessões que ocorrerão ao longo do acompanhamento de um ano em análise. Visto que que para muitas/es/os de nós, nossas identidades de gênero e nossas sexualidades não ocupam uma posição central em nossas vidas e em processos de análise. Além disso, destaco que os sofrimentos e questões vivenciadas durante a transição de cada pessoa partem também da responsabilidade social de pessoas cisgêneras. Seguimos.
Nossos encontros semanais on-line foram sendo construídos através de analogias que se relacionavam a sua vida. Travessias. Essa primeira palavra pluralizada se encontra na analogia usada por mim ao representar a vida de Luna por Estações de trem, na qual cada estação representa um interesse ou desejo. Embarques e desembarques, como estações interditadas que poderiam vir a abrirem novamente ou não. A citar, a Estação Música, Estação Trabalho, Estação Futebol, Estação Sexualidade, Estação Casa, Estação Família, Estação Jogos, entre outras que foram sendo pensadas e nomeadas enquanto lugares de passagem, seja pelo desejo de chegada e permanência ou de saída.
De forma plástica e sensível juntes fomos criando um ambiente analítico que se tornava criativo e inventivo, à medida que Luna conseguia vislumbrar caminhos possíveis. Já que no momento se encontrava a maior parte do tempo em casa lidando com a ausência de um trabalho remunerado. Conforme César e Ribeiro (2023) a vitalidade de uma relação analítica é conservada a partir de como o analista oferece transformações segundo a linguagem do paciente e do seu próprio. Caso o analista se enrijeça por efeito a filiações rígidas a correntes e teorias, o “brincar transformador” acaba se perdendo.
Lembro quando trouxe uma relação com a sua história da infância até hoje da importância dos jogos na sua vida e como a partir deles ela conseguia se curar (palavra usada por ela). O jogo enquanto brincadeira representando níveis/fases da vida, as trilhas sonoras que iam sendo compostas e a importância da música para ela. Dos “equipamentos” e itens estéticos, assim como morrer várias vezes, mas ir revivendo. Na força de seguir para matar os chefões.
Entretanto, devo logo dizer, não eram todas as sessões criativas e carregadas de insights das suas estações. Houveram muitas sessões difíceis, carregadas de pulsões de morte frente às impossibilidades tolhidas pelo desemprego, assim como o não reconhecimento e aceitação pela família quanto à sua identidade de gênero. Luna se encontrava tolhida na Estação-Casa e Estação-Família.
Quando os sentimentos de desesperança se instalavam era preciso recolhimento e um manejo cuidadoso para que, em outro momento, ela pudesse se colocar em movimento mais uma vez (mesmo que aparentemente “parada” dentro do seu quarto). Já outras sessões eram povoadas de vida, então novas metáforas surgiam. A do casulo e do processo de virar lagarta e voar enquanto uma borboleta realizando breves, mas significativos voos nas estações e para além destas. Eram nessas circunstâncias que emergiram os espaços de desvitalização e vitalização e os manejos para atravessar junto com ela esses momentos.
Relembro a passagem do livro “O vínculo Inédito” que a psicanalista iugoslávia Radmila Zygouris diz: “O que faz vínculo entre dois humanos são os alicerces de uma presença, alicerces de singularidades jamais generalizáveis. É a partir desses alicerces que um se liga ao outro e que o vínculo se estabelece ou não. E aí que a transferência se entrelaça. (2002, pp. 10-11)
Lembro quando Luna se mostrava triste por não conseguir exercer sua feminilidade e vestir-se da forma que desejava para estar em casa ou sair na rua, ir ao encontro dos seus desejos. Sua mãe veria e não deixaria passar.
– “Luna, tenho uma proposta. O que acha da próxima sessão você vir para cá (ambiente online) vestindo-se como deseja? Mesmo que seja somente no seu quarto, estarei com você aqui do outro lado da tela e você pode se vivenciar enquanto Luna junto à outra pessoa. O que acha? Seu rosto demonstrava surpresa e alegria. Assentiu. “Te vejo na próxima sessão então, tá bem? Até lá!”
Foi um risco e também uma aposta. Tanto poderia ser danoso esse manejo quanto vitalizador. Na sessão seguinte envio o link para Luna e quando nossas câmeras se abrem ela surge com um vestido que nunca tinha conseguido usar, com os brincos de passarinho nas cores da bandeira não binária e maquiada como desejava se apresentar. Fico feliz e me emociono, lhe pergunto como ela está se sentindo.
E a partir daí a sessão se desenrola, Luna podendo falar das estações que percorre em relação à sua identidade de gênero, expressão de si e sexualidade. Em outra sessão envio o link e Luna se atrasa. “Um momento, já entro”, ela me diz. Acho estranho porque ela sempre entra no horário. Alguns minutos transcorrem no tempo e ela entra na sala online, com os olhos marejados.
– “Oi! Demorei porque eu acabei de tomar meu primeiro comprimido para iniciar a hormonização. Tomei há pouco tempo mesmo, 2 minutos, antes da nossa sessão!”
Dessa vez meus olhos enchem de lágrimas e digo com emoção evidente no rosto e na minha fala o quão alegre estou junto com ela por essa conquista, digo que é uma celebração e que é um privilégio acompanhá-la nessa jornada.
Luna e eu nos emocionamos em várias sessões, somos duas pessoas que navegam na transgeneridade, com histórias diferentes, mas que compartilhamos Estações em comum. Luna ensaia nas nossas sessões a possibilidade de se experimentar, se desidentificar-se das normas impostas e da sua socialização. E não somente ensaia, mas alça voos. Luna em seu casulo-quarto, consegue emergir cada vez mais tornando-se quem deseja. Enfim, finalmente, a si mesma no seu percurso de análise.
No transcorrer do tempo cronológico e singular do seu acompanhamento, partindo de um sentir com e da construção de um ambiente confiável, o holding pode vir a acontecer e fomos trabalhando com questões conscientes e inconscientes na e para além das vivências enquanto um corpo dissidente de gênero.
Após a cena clínica e mapeamento de alguns conceitos, bem como questões éticas no contexto psicanalítico, busco neste momento trazer a possibilidade de um processo analítico em que pacientes possam desidentificar-se da imposição cisgênera e normativa.
a desidentificação com a cisheteronormatividade
A psicanálise é frequentemente reconhecida por sua potencialidade e subversidade que permeia a sua teoria. Essa discussão pode estar relacionada às implicações construídas na relação analista e analisante, em que ao deparar-se com os próprios desejos pode levar a mudanças e desidentificações. Para abordar essas questões, apresento uma breve conceituação de identificação na psicanálise. Em seguida, discuto a minha interpretação de uma desidentificação em relação à cisheteronormatividade e a interseção com a prática clínica ferencziana-winnicottiana.
O conceito de identificação é tido enquanto algo da ordem do psicológico em que o sujeito assimila uma qualidade, característica do outro e, assim, ocorre uma mudança total ou parcialmente, de acordo com o modelo desse sujeito em quem se espelhou. A personalidade vai sendo constituída e diferenciada através de uma série de identificações às quais o sujeito relaciona-se ao decorrer da vida, não sendo uma simples imitação (Laplanche & Pontalis, 2001).
Partindo desta conceituação, encontramos no texto freudiano intitulado “Psicologia das massas e análise do eu” (1921) a importância do Outro na vida psíquica de cada pessoa, visto que “o Outro é via de regra considerado enquanto modelo, objeto, auxiliador e adversário, e, portanto, a psicologia individual é também, desde o início, psicologia social, num sentido ampliado, mas inteiramente justificado” (Freud, 1921/2011, p. 14). Desse modo, o que é considerado intrínseco ao sujeito está marcado por processos sociais e coletivos, em que as presenças de identificações demonstram ligações afetivas que os sujeitos formam com outras pessoas. Segundo o autor Alexandre Almeida,
(…) não podemos nos esquecer de que, além de uma terapêutica do sujeito, a psicanálise é igualmente uma teorização da relação do indivíduo com o mundo em que vive, razão pela qual as transformações sociais devem interessar à pesquisa psicanalítica, tanto em sua prática como em sua teoria. Portanto, a responsabilidade do analista se situa na clínica e, na mesma medida, no social, uma vez que nenhuma subjetividade se forma sem essas implicações. Freud sempre recusou a clássica distinção entre individual e singular de um lado, coletivo e social do outro (…) (Almeida, 2023, p. 72)
A vida psíquica encontra-se atrelada a grupos e a dimensões socioculturais diversas, variando conforme a territorialidade e questões como classe, gênero, raça etc. Desse modo, as pessoas encontram-se em processos simultâneos de reconhecimento e deslocamento. É importante ressaltar que, conforme Judith Butler (2011, p. 28), “nenhuma compreensão da relação entre imagem e humanização pode ocorrer sem uma consideração das condições e significados dos processos de identificação e desidentificação”.
Nesse cenário, penso na desidentificação como ver no outro o que não cabe para si, tecendo uma construção de experiências que não estão pautadas na cisheteronormatividade5. De acordo com a pesquisadora transfeminista Letícia Nascimento (2023, p. 169, grifos meus), “as dores que carregamos não são parte de uma individualidade, nossas dores estão intrinsecamente conectadas a uma rede social violenta que poda as diferenças sexuais e de gênero”. Assim como para Eli Rosa,
a objetificação é explícita quando indivíduos adequados à cisheteronorma demonstram um desejo – ou ainda, uma necessidade – de interferir diretamente no comportamento daqueles/as que não se adequam à norma para que estes/as mudem em prol da cisheteronormatividade, sem levar em consideração a subjetividade por trás de cada indivíduo afetado por aquelas atitudes (Rosa, 2020, p. 100)
A partir disso, é possível notar que tais processos relacionadas a desidentificar-se são atravessados por ressonâncias adoecedoras e patologizantes aos olhos e ouvidos de pessoas cisgêneras, principalmente no campo das ciências psis (psicologia, psicanálise, psiquiatria) e médicas. Os binômios que são apresentados, como saúde-doença e o normal-patológico, como outros termos dicotômicos, constituem uma atenção voltada às pessoas gênero-dissidentes que restringem inventividades, potencialidades e processos de singularização.
Assim, refiro-me à desidentificação enquanto a fabricação de novos modos de subjetivação dentro do prisma múltiplo das transgeneridades, travestilidades, não-binariedades ou até mesmo para além destas. Nesse sentido, no espaço da análise, cada pessoa pode vir a singularizar-se e ir ao encontro dos seus desejos, afastando-se de, segundo Viviane Simakawa,
uma normatividade de gênero – a cisnormatividade ou normatividade cisgênera – que exerce através de variados dispositivos de poder interseccionalmente situados, efeitos colonizatórios sobre os corpos, existências, vivências, identidades e identificações de gênero que, de diversas formas e em diferentes graus, não estejam em conformidade com seus preceitos normativos. (Simakawa, 2015, p. 47, grifos meus)
Para que tais possibilidades venham a ganhar espaços de falas e outras construções no setting clínico, é preciso que haja a compreensão de que os percursos feitos por pessoas trans, travestis e não binárias são plurais. Existem muitas possibilidades de identificações de gênero, sexualidade e outros caminhos de subjetivação, que se encontram para além de uma classificação hierárquica – e patologizante – em relação a uma suposta superioridade das identificações cis-gênero (Ayouch, 2016).
Estas, ao construírem escutas e olhares transfóbicos, contribuem para a perpetuação de discursos e posicionamentos que reforçam estruturas de exclusão e violências que adentram os espaços analíticos. No artigo intitulado “Unthinkable Anxieties Reading Transphobic Countertransferences in a Century of Psychoanalytic Writing”6, de acordo com o psicanalista Griffin Hansbury,
Ao reduzir o controle na preocupação excessiva analítica com a etiologia – ao afastar-se do questionamento “Por que trans? ” e ir em direção a pergunta “Como trans? ” – o campo da psicanálise está começando a abrir um espaço no qual os psicanalistas podem analisar suas próprias reações transfóbicas e não se afogarem nas contratransferências que prejudicam o processo analítico e o paciente. (Hansbury, 2017, p. 400, tradução minha).
Essa mudança em curso possibilita uma interação coletiva entre analistas cis e trans, ativistas e pesquisadores que compartilham suas ideias para encontrar formas de aproximar-se das transgeneridades para além da busca por ‘causas subjacentes’ e as reações contratransferenciais transfóbicas. Com essa transformação semântica e outras posturas clínicas, pode-se criar ambientes que ofereçam diferentes modos de escuta e interpelações para aqueles que estão em análise (Griffin, 2017).
Portanto, destaco a importância do processo de desidentificação no espaço analítico diante da cisheteronormatividade. Tal mudança pode trazer impactos subjetivos relevantes na vida de pessoas gênero-dissidentes. Através de um espaço clínico que possibilite a desidentificação com as pressões normativas, assim como a busca do reconhecimento da construção da própria identidade.
Ao refletir sobre a construção de uma ética e uma desidentificação na teoria psicanalítica, com base nos referenciais teóricos ferenczianos e winnicottianos, proponho a construção de uma psicanálise não-mortífera. Esse diálogo nos convida a considerar as reflexões teóricas e práticas, promovendo escutas que não sejam violentas para pessoas gênero-dissidentes. Evitando, assim, a reprodução de discursos que sigam perpetuando as violências simbólicas e estruturais enfrentadas fora do setting clínico, bem como a retraumatização na cena analítica diante de uma imposição cisheteronormativa.
por uma psicanálise não-mortífera
Nesse contexto, é fundamental refletir sobre como psicanalistas hegemônicos — brancos, cisnormativos, heterossexuais, de classe média, cristãos, magros e sem deficiências[8] —, exercem poder por meio de seus discursos tornando-se agentes perpetuadores de violências e aniquiladores de subjetividades.
Na teoria ferencziana sobre o trauma, destaca-se o conceito de desmentido, essencial para entender o traumático. Visto que a partir da reprodução de traumas vivenciados, a postura do analista frente ao discurso é primordial. Ferenczi enfatiza a importância da alteridade na constituição do trauma, mantendo-se fiel às revelações de sua prática clínica, que indicam que o trauma resulta essencialmente da ação de um outro sobre a pessoa que vivenciou o trauma. (Pinheiro, 1995). Esse conceito é compreendido como,
não-reconhecimento e a não-validação perceptiva e afetiva da violência sofrida. Trata-se de um descrédito da percepção, do sofrimento e da própria condição de sujeito daquele que vivenciou o trauma. Portanto, o que se desmente não é o evento, mas o sujeito (Gondar, 2012, p. 197)
Tal processo pode acontecer através dos silêncios excessivos diante das situações traumáticas apresentadas por pessoas gênero-dissidentes, bem como a partir de discursos mortíferos, reproduzindo uma retraumatização na cena analítica. De acordo com Sofia Favero (2023, pp. 147-148, grifos meus), “a história das ciências psi nos mostra que a condescendência dos operadores da escuta, em considerar inumanas determinadas experiências raciais, étnicas, sexuais, corporais, de classe e de gênero, asseguram verdadeiros circuitos de violência (…). Desse modo, os usos dos discursos na psicanálise em oposição aos corpos dissidentes no setting clínico e nos espaços formativos podem ser fatais e, consequentemente, causar mortes.
E aqui quero falar de uma forma de morrer. Aquela que não é morte morrida, nem morte matada7, mas morte orquestrada. Segue-se, então, uma necropolítica em curso, ditando quem pode viver e quem deve morrer e quais corpos são considerados “matáveis” enquanto determinados corpos têm direito à vida (Mbembe, 2018). Essa dinâmica revela como as estruturas sociais e culturais numa sociedade transfóbica moldam a percepção humanização e dignidade, perpetuando desigualdades e violências.
Podemos ver essa relação quando, de acordo com os discursos cisheteronormativos, a roupagem da violência é considerada “tolerável”, enquanto outras são plenamente julgadas e reconhecidas. Conforme trazido por Judith Butler (2016, p. 17), “há “sujeitos” que não são exatamente reconhecíveis como sujeitos e há “vidas” que dificilmente – ou, melhor dizendo, nunca – são reconhecidas como vidas”. Esse não-reconhecimento sistemático não apenas põe à margem corpos dissidentes, como também sustenta ciclos de opressões através de silenciamentos das violências experienciadas.
No livro “Ñ V NOS MATAR AGORA” (2021) a artista interdisciplinar Jota Mombaça apresenta que a violência é socialmente distribuída, bem como “é tudo parte de um projeto de mundo, de uma política de extermínio e normalização, orientada por princípios de diferenciação racistas, sexistas, classistas, cissupremacistas e heteronormativas, para dizer o mínimo. (Mombaça, 2021, p. 74, grifos meus). Dentro dessa lógica de aniquilamento de existências, é possível notar que, para a psicanálise hegemônica, as transgeneridades, travestilidades e não binariedades, foram e continuam sendo construídas através de um prisma mortífero.
Tais perspectivas fortalecem as ideias de anormalidade e patologização das vidas que possuem um potencial inventivo e criativo, acerca dos seus processos que são únicos, mas também construídos coletivamente, de criação de si frente a um CIStema adoecedor.
Nesse cenário, a adoção de uma defesa narcísica e pactuante alinhada às normatividades sociais de psicanalistas é operada, a citar, ao utilizarem o inconsciente como “universal”, especialmente em diálogo com os pares psicanalíticos. Ao afirmarem que o inconsciente não tem cor, raça ou gênero, continuam enfatizando uma perspectiva intrapsíquica e individual. De acordo com a psicanalista Radmila Zygouris (2002, p. 21), “(…) os processos inconscientes são universais, mas devo precisar: o que é universal são os processos inconscientes e não seus conteúdos. Estes decorrem de categorias teóricas”.
Diante disso, como pensar numa psicanálise não-mortífera? Quais caminhos são possíveis de serem traçados para que não haja a perpetuação de discursos mortíferos e violentos contra corpos dissidentes a partir das psicanálises? Como, nós que desejamos atuar a partir de referenciais clínicos, teóricos e práticos no contexto psicanalítico, podemos construir uma psicanálise que se proponha a ser vitalizadora?
Acredito que é cada vez mais urgente interseccionalizar as psicanálises com diversas experiências e dialogar com outros campos de conhecimento, incluindo saberes territorializados e construídos através da oralidade. Assim como outras epistemologias que se encontram para além das teorias psicanalíticas. É essencial que o diálogo não se restrinja a si mesmo. Devemos considerar a clínica psicanalítica de forma ampliada, além do consultório particular e da lógica que destaca os sofrimentos individuais e intrapsíquicos.
Em “Resumo da psicanálise” (1924), Freud afirma que as formulações e desenvolvimentos da psicanálise até aquele momento foram fundamentais para a evolução cultural das décadas seguintes e para aprofundar nossa compreensão do mundo. No entanto, não deveríamos nos esquecer de que “a psicanálise sozinha não pode fornecer uma visão do mundo completa” (Freud, 1924/2011, p. 250).
Para seguir em diálogo, se torna urgente que os profissionais da ética, como assinalado por Sofia Favero (2023), se engajem em perspectivas que os desloquem dos universalismos binários separando as diferenças trans da lógica de uma representação hegemônica. Ao se engajarem por uma diferença e advento de novas formas de pensar identidades trans, tendo em vista as singularidades das vidas e transformações de quem vivencia esse atravessamento. Pensar para além da patologia e realocar as subjetividades trans possibilita que alegria e euforia possam ser libertadas pelo pensamento (Bagagli, 2016) e, ainda acrescento, tendo assim práticas e escutas clínicas advertidas e implicadas.
Esse é um caminho a ser explorado como um convite ao diálogo com as psicanálises. Acredito que a realidade do encontro com a diferença e a alteridade vão além da linguagem da/na cisheteronormatividade. Assim, o endereçamento das escutas e falas exigem novas formas de estar na clínica psicanalítica.
algumas breves considerações finais – a criatura que vos convida
Neste escrito, propus algumas críticas e pistas, a partir do referencial ferencziano e winnicottiano para construirmos coletivamente outras possibilidades de inventividade e criatividade pautadas em bases teóricas e éticas.
Interrogo-me juntamente com a autora Letícia Nascimento sobre a psicologia e acrescento o campo das teorias psicanalíticas: “O que podemos fazer com o espelho da cishetenormatividade branca-europeia-burguesa? Será a psicologia capaz de produzir vida, tanto quanto produz constantemente morte?” (Nascimento, 2023, p. 168). Lanço novamente as perguntas: As psicanálises podem oferecer uma prática clínica vitalizadora? Como fazer essa construção e em quais condições?
Devido às limitações dessa escrita, não foi possível aprofundar algumas questões levantadas, como a exploração da potencialidade na desidentificação com a cisheteronormatividade num processo de escuta analítica com pessoas gênero-dissidentes; desenvolver uma abordagem mais aprofundada sobre o cuidado ético na psicanálise em relação às questões de identidade de gênero e sexualidades; explorar outros rumos possíveis para construção de uma psicanálise que se proponha a ser vital.
Essas são algumas considerações iniciais. Ressalto o convite para quem deseja dialogar com as psicanálises em suas escutas e práticas clínicas. Coletivamente, talvez, possamos maturar ideias e caminhos para construção de psicanálises não-mortíferas. Torço nesse plantio para que outras elaborações, críticas e pensamentos possam germinar.
Referências
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Zygouris, R. (2002). O vínculo inédito. Editora Escuta.
Notas
1 Título inspirado e parafraseado do livro de Paul B. Preciado intitulado “Eu sou o monstro que vos fala: Relatório para uma academia de psicanalistas” (2022). Meu escrito é um Ensaio-artigo para – mas não somente – psicanalistas, analistas, estudantes de psicanálise trans, travestis e não-bináries que tem desejo em atuar na clínica, a partir de um diálogo com as psicanálises. Alguns pensamentos sendo tecidos no decorrer de uma formação contínua de uma pessoa transmasculine, branco, pansexual, nordestino, um corpo que vem buscando navegar em fluxos mutáveis na/para além das identidades.
2 Segundo Manifesto sobre o Uso da Linguagem Neutra do CRP-SP (CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA DE SÃO PAULO, 2021) utiliza-se a linguagem neutra de gênero como uma alternativa ao masculino genérico, proporcionando maior inclusão e respeito às identidades de pessoas trans, travestis e não binárias. Cito uma passagem: “Como a identidade de gênero é autodeclarada, o uso da linguagem também é. Nem todas as pessoas não bináries utilizam a linguagem neutra para se referirem a si mesmas” (10 parágrafo). Portanto, acrescento o feminino e o neutro, com flexão de gênero com a letra “e”.
3 Para Zimerman (2009), o conceito de setting pode ser traduzido como “enquadre” e se conceitua como “a soma de todos os procedimentos que organizam, normatizam e possibilitam o processo psicanalítico”. Assim, ele resulta de uma conjunção de regras, atitudes e combinações, tanto as contidas no “contrato analítico” como também aquelas que vão se definindo durante a evolução da análise (…)” (p. 301). O autor ainda destaca a relevância da participação do analista, visto que “a sua estrutura psíquica, ideologia psicanalítica, empatia, conteúdo e forma das interpretações contribuem, de forma decisiva, nos significados e nos rumos da análise” (Zimerman, 2009, p. 302). O setting clínico, portanto, é caracterizado como espaço no qual a análise ocorre, sendo também o cenário no qual a relação terapêutica é desenvolvida entre analista e paciente.
4 Esse conceito é trazido e elaborado pelas autoras Fátima Flórido César e Marina F. R. Ribeiro através dos capítulos que são encontrados no livro: “Chuva n’alma: A função vitalizadora” (2023) da Editora Blucher, no primeiro capítulo intitulado “A dimensão vitalizadora da função analítica: da técnica ativa à elasticidade da técnica ferencziana.
5 A cisheteronormatividade refere-se à norma que pressupõe a heterossexualidade como padrão universal, implicando que todas as pessoas são ou devem ser heterossexuais ao longo da vida. Essa noção abrange tanto a heteronormatividade quanto a cisnormatividade, permitindo uma análise conjunta de seus efeitos. Sobre esse termo, destaco o artigo intitulado “Cisheteronormatividade como instituição total” (2020) do autor Eli Bruno do Prado Rocha. Cadernos PET-Filosofia, v. 18, n. 2. Recuperado de: http://dx.doi.org/10.5380/petfilo.v18i2.68171. Acesso em 19 de outubro de 2023. Para esse autor o conceito é caracterizado como “um conjunto bem delimitado de normas, reforços e punições, assim como aquelas presentes nas instituições totais”. (Rosa, 2020, p. 67).
6 Título em tradução livre: “Ansiedades inimagináveis: Lendo Contratransferências Transfóbicas em um Século de Escrita Psicanalítica”. (Hansbury, 2017)
7 Poema do Pernambuco João Cabral de Melo Neto na sua obra Morte e Vida Severina e que já dizia no trecho seguinte: “E foi morrida essa morte, irmãos das almas, essa foi morte morrida ou foi matada?”. A “morte matada” é um crime, assassinato e a “morte morrida” seria por causas naturais e, através da crítica retratada no livro, até mesmo por conta da fome.

corpo navegante entre fluxos mutáveis na/para além das identidades. amante da literatura, natureza e cachorros – observador de pássaros (passarinheire) – transmasculine – branco – nordestino. Psicólogo pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Pós-graduado com especialização em Psicanálise e Relações de gênero (FAUSP/IPPERG). Integra a Articulação Regional de Psicólogues trans (ARPTrans-PE). Atual Vice presidente da Comissão de Orientação e Fiscalização (COF) no Conselho Regional de Psicologia de Pernambuco (CRP-PE) como Conselheiro Titular. Estuda sobre gêneros e sexualidades, relações étnicos-raciais e não-monogamia. me interesso por escutas éticas e sensíveis no campo psicanalítico. junicanti.psi@gmail.com

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