Andressa Benini Mendes
Psicóloga graduada pela Unesp/Assis, pós-graduada em Psicanálise e Relações de Gênero: Ética, Clínica e Política pelo IPPERG, mestre em ciências pela Esalq/USP. Sapatão dissidente, psicóloga clínica em diálogo com a psicanálise e redutora de danos, tem como temas de interesse gênero, sexualidade e suas interseções, saúde mental e direitos humanos.
Como citar esse texto?
MENDES, Andressa Benini. O suposto saber das entendidas: um diálogo entre feminismo lésbico e escuta clínica. Caderno Desvios Psicanalíticos, v. 1, n. 1, 2025. Disponível em: [link]. Acesso em: [data de acesso]
A sexualidade desde sua perspectiva de desenvolvimento e formação de objeto é um tema que marca amplamente a teoria psicanalítica, sendo essa uma das principais questões que Freud busca definir ao longo de sua obra, projeto que ressoa por diversos autores pós-freudianos. Desde a década de 60, feministas e teóricas queer vêm formulando de maneira mais contundente críticas às perspectivas heterormativas e falocentricas da psicanálise, o que se justifica pela ampla repercussão dessa teoria e das implicações que ela tem sobre o entendimento da sexualidade em diversos âmbitos. Dentre essas teóricas destacamos as feministas lésbicas, com trabalhos produzidos ainda na década de 70/80 e que encontram pouca ressonância em nosso país, inclusive no plano psicanalítico. Partindo dessa lacuna, o presente trabalho tem por objetivo investigar produções do feminismo lésbico a fim de contribuir com um refazer clínico que opere rupturas na heteronormatividade e no sofrimento psíquico decorrente dela. Assim, esse trabalho busca revisitar e destacar os dizeres marginalizados de mulheres lés/bi, tencionando os lugares de saber e não-saber a partir de reflexões daquelas que são “outsiders”. Para aprofundar a questão analisaremos mais especificamente os textos “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica” de Adrienne Rich e “Os usos do erótico: o erótico como poder” de Audre Lorde. As produções dessas autoras contribuem para pensarmos o lugar social produzido para sexualidade daquelas nomeadas como mulheres, bem como, voltam a atenção da nossa escuta para outras possibilidades do erotismo. Uma vez que a escuta dos caminhos do desejo de forma ética exige não uma posição neutra, mas sim uma formação política e localizada para que o fazer clínico que esteja à altura do desafio que heteronamatividade nos coloca.
introdução
Esse artigo nasce do anseio de recuperar textos e produções de autoras lésbicas e assim fazer frente ao seu apagamento, inclusive dentro das teorias de gênero, da psicanálise e por vezes da própria lesbianidade. Apagamento fruto de uma política patriarcal de esquecimento, como aponta Carvalho, Calderaro & Souza (2013). Sabe-se que Freud já fazia referência a homossexualidade feminina, não se trata desse tipo de desconhecimento, ou então do fato que dentro e fora da psicanálise se fala da sapatão, das mulheres ‘estranhas’, da tia que guarda um segredo, seja pelo deboche, violência, impedimento ou uma curiosidade incauta. Ou seja, o apagamento envolve também a produção de uma imagem que passa a ser tomada como todo, seja nessas formas abjetas ou como mercadoria, precisando, nesse caso, obedecer a rígidos padrões de ‘qualidade’. O que pode ser visto nas poucas representações de lésbicas na TV, que quando retratadas são em sua grande maioria mulheres brancas, magras, femininas e cisgenero. Para Alexis Pauline Gumbs (2021) vivemos “numa época em que a lesbianidade é mercantilizada das formas mais brancas possíveis, como uma busca normalizada por espaço e nos fazendo mentir umas às outras” (p.18). O que me suscita questões como, o que esperamos de uma lésbica? Quem é a sapatão? Temos todas a mesma história? Respondo essas perguntas com a poesia1 daquelas ‘entendem’ do assunto, como Audre Lorde.
Outubro
Os espíritos
dos anormais nascidos
vivem na água
e dos heroicamente mortos
nas entranhas da serpente.
Agora atravesso meus dias feito uma ponte selvagem
balançando no lugar
pega entre poemas como um torno
estou terminando minha parte nessa barganha
e como é que vou voltar?
Seboulisa2, mãe do poder
guardiã dos pássaros
gorda e bela
dê-me a força dos teus olhos
para que eu me lembre
daquilo que aprendi
ajuda-me a realizar com paixão
aqueles feitos ao alcance de minha mão.
Leva meu coração a alguma costa
que meus pés não irão romper
não me deixa morrer
antes que eu tenha um nome
para essa árvore
sob a qual eu me deito.
Não me deixe morrer
Ainda
precisando ser desconhecida. (Lord, 1980/2023, pp. 187-189)
No que diz respeito especificamente ao campo da psicanálise, o objetivo é trazer reflexões teóricas que ampliem nossa possibilidade de escuta ética. Trata-se de um posicionamento ético-político, de escuta do sofrimento e do adoecimento impostos pelas normas de gênero, raça e sexualidade.
Santos (2023), ao pensar principalmente nos efeitos do racismo, mas também de outros marcadores sociais de diferença, sobre a subjetividade, traz a ideia de uma intoxicação colonial. Para o autor o colonialismo se refere as formas objetivas de exploração e expropriação de determinadas populações, produzindo um outro que pode ser exterminado. Essa violência colonial produz subjetividades e uma política do desejo que seguem sustentando desigualdades de gênero, classe, raça, sexualidade entre outras
Para tanto, Santos (2023) propõem que a escuta dos caminhos do desejo de forma ética exige não uma posição neutra, mas sim, uma formação política e localizada, para que o fazer clínico esteja à altura do desafio que a colonialidade nos coloca. Em suas palavras,
É importante que nós, analistas, sempre nos perguntemos: desde onde, de qual lugar, mediante quais conceitos e noções os processos psíquicos precisam ser pensados? De qual altura do entendimento isso precisa ser visto e considerado? Ademais, é sempre importante lembrar que tais processos precisam não só serem pensados, mas também penetrados por uma prática, uma intervenção clínica que esteja à sua altura, ou seja, a altura do desafio que esses processos comportam. (p.67)
Buscando contribuir pontualmente com essas inquietações, recupero dois textos de duas autoras importantes para o pensamento lésbico, Adrienne Rich e Audre Lorde, e analiso suas possíveis contribuições para o fazer clínico. Esse encontro traz possibilidades de pensarmos quais os efeitos que o regime da normatividade tem em nossos corpos e desejos. E também daquilo que escapa a esse modelo, o erotismo feminino, até então, subjugado pela masculinidade e pelo racismo aparece como prazer. Diálogo com o campo da clínica psicanalítica tocada pela questão de como podemos escutar esses impasses, “como escutar aquilo que escapa a todo conhecimento” (Santos, 2023, p.68), ou os dizeres daquelas que precisam ser desconhecidas.
Considero que a experiência de uma eroticidade lésbica se encontra no campo do exploratório e da sensibilidade, algo que foge do discurso hegemônico e aparece no corpo, a travessia de uma ponte selvagem. Muito se fantasia sobre essa eroticidade, amplamente explorada como um acontecimento vazio de prazer em si e que tem no olhar masculino seu clímax. Fantasias sobre o lugar e o prazer da mulher que são permeadas também pelo olhar e pelo desejo de controle racial. Lélia Gonzales (1984/2020) destaca as formas de controle do corpo da mulher negra representadas pelas figuras da mulata que seduz e encanta no carnaval, da empregada quer serve cotidianamente e da mãe preta que alimenta e cuida. À parte dessa fantasia, vivenciamos uma eroticidade que escapa ao conhecimento, que opera no campo do que não se sabe e não se conhece enquanto discurso racional, mas que se vive enquanto afeto e corpo que sente, como uma árvore para se deitar. Entendo isso juntamente com Rich (1980/2019) e Lorde (1984/2019a) ao falarem da supressão e subordinação da sexualidade das mulheres e também de suas poesias.
Aqui não pretendo trazer uma experiência essencialista e universal sobre o que é ser mulher e/ou lésbica, como se essas denominações pudessem descrever experiências pessoais, como se pudéssemos em algum momento entender a totalidade de nossa eroticidade em dizeres sobre uma origem/causa, ou de uma única forma de ser entendida.
O interesse do texto se volta para a questão da normatização de corpos identificados como femininos, a partir de diferentes experiências, pensando nessa nomeação que nos convoca para algumas vivências e relações com nossa sexualidade. Mais do que marcar uma identidade, busco trazer um debate sobre a construção política de alguns corpos e sua resistência a partir da eroticidade, em consonância com que Cunha & Stona (2024) propõe como racionalidade identitária.
Assim, procuraremos, a seguir, nos deslocar da ideia abrangente – imprecisa e pouco rigorosa – de identidade para a ideia de uma racionalidade identitária, de um determinado modo de pensar, que funda uma concepção particular da relação do sujeito consigo mesmo e com o outro, estabelecendo, assim, uma modalidade específica de subjetivação. (p.18)
Ao poetizarem e teorizarem sobre suas vidas Rich e Lorde interrogam os saberes universalizantes sobre sexualidade, gênero, raça, classe, entre outros, desenhando a sexualidade das mulheres sob um olhar político-crítico. Interlocutoras em suas produções, ambas foram autoras estadunidenses que produziram grande parte de suas obras nos anos 70 e 80. Buscavam trazer para o debate feminista de sua época, no que ficou conhecido como segunda onda do feminismo, questões referentes a raça e sexualidade, reivindicando que mulheres tem suas experiências marcadas por outras questões que não apenas o gênero. Nas palavras de Lorde (1984/2019d) “É uma arrogância particularmente acadêmica iniciar qualquer discussão sobre teoria feminista sem examinar nossas muitas diferenças, sem uma contribuição significativa de mulheres pobres, de mulheres negras e do Terceiro Mundo, e de lésbicas”. (p.136).
Os trabalhos de Adrienne Rich se voltam principalmente para os temas de gênero, feminismo e política. No texto aqui escolhido “heterossexualidade compulsória e existência lésbica” de 1980, a autora destaca a ideia de heterossexualidade compulsória e questiona a heterossexualidade como instituição política. Apresentando outras referências para pensar o que ‘orienta’ a sexualidade e qual espaço há para a existência lésbica
A obra de Audre Lorde, além da temática de gênero, traz de maneira contundente a questão racial. É uma autora que tem chegada tardia no Brasil – seus textos da década de 70 tem tradução recente em nosso país – um efeito do racismo e da lesbofobia. Seus textos são escritos e conduzidos por sua sensibilidade e percepções de si, trabalhos impactantes e poéticos sobre sua vivência como mulher negra e lésbica. Seu texto “Os usos do erótico: o erótico como poder” – publicado na coletânea Irmã Outsider, de 1984 – narra sua relação com o prazer e os caminhos de uma eroticidade não subjugada
Um ponto importante nos textos é a referência as mulheres, pois ainda que as autoras estivessem interessadas em tencionar a universalidade desse termo, elas trazem uma concepção calcada no sexo biológico. O que fez com que recebessem críticas por parte de teóricos queer e fossem posteriormente apropriados por teorias e movimentos sociais transexcludentes, em especial o texto de Rich. Nesse sentido Rugierri (2023) traz a importância das contribuições do feminismo lésbico, corrente do feminismo no qual as autoras podem ser localizadas.
O feminismo lésbico não pode se tornar mero degrau a ser superado para dar origem a teoria queer, sobretudo porque, ainda hoje, a diferença sexual/de gênero, em conformações distintas de acordo com classe e raça, segue operando insidiosamente e constituindo corpos e subjetividades que são ordenados no mundo em função dessa diferença – a teoria queer, sugere Sarah Ahmed, muitas vezes visibiliza mulheres lésbicas ou as reivindica como a memória de um projeto falido. (Ruggieri, 2023, p.214)
Um ponto de embate do feminismo lésbico é com os movimentos homófilos da década de 60. Segundo Ruggieri (2023) esses tinham suas pautas voltadas principalmente para a liberdade sexual individual, enquanto que as lésbicas reivindicavam a perspectiva feminista e a crítica não só a heterossexualidade, como também ao patriarcado e ao racismo. Destaco como há uma sobreposição entre questões de gênero, raça e sexualidade e como apenas o direito à liberdade sexual homoafetiva não garante a liberdade daquelas ditas mulheres, uma vez que não é apenas a homofobia que limita nossa existência.
Ruggieri (2023) também pontua que diferente do movimento homófilo, que reclamava um determinismo biológico da homossexualidade como forma de reconhecimento, o feminismo lésbico trazia uma perspectiva política e a reinvindicação de uma existência possível para as lésbicas, tal como aparece no texto de Rich (1980/2019). Há, assim, por parte das teóricas e ativistas lésbicas um questionamento sobre a naturalização da sexualidade e a necessidade de entender a política presente nesses discursos.
A reinvindicação de reconhecimento apresentadas por aquelas que escutamos na clínica é um terreno movediço, uma vez que, o trabalho psicanalitico não se volta para uma ideia de identidade. No entanto, consideramos essencial uma escuta do sofrimento social e das violências impostas sobre determinados corpos. Cunha & Stona (2024) pontuam algumas saídas nesse sentido, a partir da possibilidade de outras formas de reconhecimento, o que é essencial para a proposta aqui apresentada.
Trata-se de levar radicalmente em conta que a clínica analítica participa dos processos de socialização e se apresenta como lugar de reconhecimento, ou melhor, como espaço possível de produção de novas formas de reconhecimento, para além das normas preestabelecidas pelo discurso dominante. Isso, de início, já coloca em cena a possibilidade de uma postura ética pós-identitária. (Cunha & Stona, 2024, p.35)
O encontro das lesbianidade com a normativa de gênero encarnada no discurso médico/psicanalítico é narrado pela poeta Judy Grahn, em um poema de 1969.
A psicanalise de Edward a sapatão
“Você precisa confiar em nós. Vamos lhe curar dessa aflição mortal e antes mesmo que você se dê conta estará toda fofa e maravilhosa com bebês lindos e um clube de bridge todo seu”. Ele fez um rápido esboço de um clube de bridge. “Agora deixe-me ver. Estimamos, acredito, que depois de apenas quatro anos de terapia intensiva e dois anos de terapia antiintensiva, mais algumas pequenas mudanças físicas, e você será exatamente a garotinha que sempre quisemos que fosse. ” Rapidamente, o Dr. Knox folheou um índice que estava em sua mesa. “Sim, sim. Este ano o tamanho normal do sutiã é de 142 centímetros. E da cintura, 31 centímetros. Nada que alguns hormônios bem aplicados não possam fazer nesta época avançada. Qual era a sua altura mesmo? ”.
“Agora me diga, rapidamente, o que a palavra ‘homossexualidade’ significa para você, em suas próprias palavras. ”
“Amor flores pérola, de braços deleitados. Quente e água. Derretimento de um wafer de baunilha nas calças. Rosas de pétalas róseas a vibrar o orvalho sobre os lábios, fruta macia e suculenta. Sem dentes. Sem cuspe repugnante. Lábios mastigando ostras sem areia suja ou vibrissas. Folhados. Biscoitos de gengibre. Pão quente, doce. Poesia de torrada de canela. Justiça igualdade salários mais altos. Canção angelical independente. Significa que posso fazer o que quiser.”
“Agora, minha querida”, Dr. Knox disse, “Sua doença está completamente fora de controle. Nós, cientistas, obviamente sabemos que é uma experiência altamente prazerosa colocar o pênis ou a vagina de alguém na sua boca – é prazerosa e agradável. Todo mundo sabe disso. Mas depois de você ter colocado mil pênis ou vaginas prazerosas na sua boca e mil pessoas terem colocado o seu pênis ou vagina prazerosa em sua boca, o que você terá conseguido com isso? O que tem para mostrar? Você tem uma esposa e filhos ou um marido e um lar ou uma viagem para a Europa? Você tem um clube de bridge para mostrar? Não! Você só tem mil experiências prazerosas para mostrar. Você entende que não está conseguindo ver o significado da vida? O quão sórdidas e depravadas são essas escapadas clandestinas em parques e banheiros públicos? Eu lhe pergunto.” (Grahn, 1969/2020, s.p.)
Assim, proponho que façamos um percurso de Edward pelas autoras, construindo uma relação não com a verdade e o sentido pleno e sim que possamos ser atravessades pelo sentir. Possibilitando que nossa escuta entre em ressonância com a fala da sapatão ao invés da de Dr. Knox, que talvez, não por acaso, porta um nome que me lembra a palavra know – saber em inglês.
a política da heterossexualidade
A existência lésbica sugere tanto o fato da presença histórica das lésbicas quanto da nossa criação contínua do significado dessa existência (Rich,1980/2019, p.65)
Heterossexualidade compulsória é um texto de 1980. Rich (1980/2019) apresenta no prólogo, de 1983, as intenções de seu texto, que se volta para a crítica ao apagamento da lesbianidade na literatura acadêmica feminista, principalmente quando se trata de autoras não brancas, e a ausência de um questionamento acerca de uma “heterocentralidade não examinada” na vida das mulheres. Buscando com isso trazer aspectos políticos que ela considera que compõe a heterossexualidade e também destacando a importância do vínculo entre mulheres, o que ela chama de continuum lésbico, e a recuperação dessas histórias. Ela destaca que seu objetivo é suscitar mais debates sobre a heterossexualidade e o vínculo entre mulheres, em um texto provocativo e que também convida a mais elaborações. O que entendo como essencial também no campo clínico psicanalítico, no qual esse apagamento persiste.
Sua preocupação também se volta para a força do pensamento conservador e seus dizeres sobre o lugar das mulheres. Discursos fortemente religiosos e que trazem a imagem da tradição, da família, da maternidade e exercem seu poder a partir do controle econômico e sexual. Para a autora nesses discursos da direita “somos propriedade emocional e sexual dos homens, e que a autonomia e a igualdade das mulheres são uma ameaça a família, à religião e ao estado” (Rich, 1980/2019, p.28). Projeto de controle das mulheres que segue ferozmente até nossos dias, analisando o projeto político atual de nosso país, mas também pensando no que acontece na política norte americana, Cida Bento (2022) afirma que o projeto de nação está fortemente vinculado masculinidade e a branquitude. Tal projeto produz uma condição de estreitamento de condições de vida principalmente para mulheres negras, ou para aquelas que não se enquadram no modelo de feminilidade branca heterossexual.
Pensando nesse cenário político, Rich propõem já no início da década de 80, que o feminismo pode encontrar uma força importante ao olhar para a ideologia que “exige heterossexualidade”, como uma das formas de controle das mulheres. O caráter patológico e/ou desviante pelo qual as mulheres que não cumprem essa exigência são tomadas, pode ser visto no passado e no presente através de supostas curas, estupros corretivos, mortes violentas, manicomialização atualmente representada pelas comunidades terapêuticas, entre outras. Um processo de formação de um outro abjeto e exterminável que se dá na relação com outros marcadores de diferença, como a racialização, maternidade, transexualidade, presença de deficiência, classe social outros. Frente a isso, se faz urgente ouvirmos as lésbicas, as sapatões e as bi em sua diversidade.
O feminismo, segundo Rich (1980/2019), que já reconhece a disparidade entre os gêneros e a condição de subjugação da mulher nas relações com homens, acaba muitas vezes deixando de fora a heterossexualidade como uma instituição pela qual se exerce a dominação masculina, inclusive através do apagamento das relações entre mulheres de qualquer ordem, ou seja, esmagando aspectos da vida das mulheres que fogem ao controle masculino. Nas palavras de Rich,
O que estou sugerindo é que a heterossexualidade, como a maternidade, precisa ser reconhecida e estudada como uma instituição política – inclusive, ou especialmente, por aqueles indivíduos que sentem ser, em sua experiência pessoal, os precursores de uma nova relação social entre os sexos (p.42).
O teste de Bechdel, parece ilustrativo para observamos isso no cinema. Esse teste é apresentado pela cartunista norte americana Alison Bechdel de forma provocativa em uma de suas tirinhas em 1985, e consiste em fazer três questões para avaliarmos o quanto um filme traz personagens femininas fortes, são elas: O filme tem duas ou mais personagens com nomes? Elas conversam entre si? O assunto da conversa é algo que não seja homem ou assuntos relacionados a romances?3 Aplicar esse teste em produções antigas e recentes demonstra um pouco a forma como as mulheres são retratadas, sem nome, sem interlocução com outras mulheres ou centralizadas em homens, principalmente, a partir de relações românticas. Nesse ponto a autora não traz um questionamento racial, mas podemos estender essa compressão e pensamos na representação das mulheres negras dentro das três figuras apresenta por Gonzalez (1984/2020) a mulata, a empregada e a mãe preta, quantas vezes vemos essas mulheres representando outros papeis?
Segundo Rich (1980/2019), o risco que a lesbianidade e o vínculo entre mulheres4 apresenta para a dominação masculina justifica o apagamento e as considerações sobre nossos corpos que são da ordem do desvio, da imaturidade, da histeria, da amargura, da solidão, que recaem sobre mulheres lésbicas e bissexuais – em especial – ou sobre aquelas que negam a dominação masculina de alguma forma, não apenas por sua orientação sexual.
A heterossexualidade aparece então como algo compulsório, da ordem de uma obrigação, algo ao qual não se pode escapar ou questionar, essa naturalização sustenta sua centralidade na vida das mulheres.
Apesar de profundos impulsos emocionais e complementariedade que fazem com que as mulheres se atraiam por outras mulheres, existisse uma inclinação heterossexual mística/biológica, uma ‘preferência’ ou ‘opção’ que faz com que as mulheres se atraiam por homens. Além disso entende-se que esta ‘preferência’ não precisa ser explicada a não ser pela tortuosa teoria do complexo de Édipo das mulheres ou pela necessidade da reprodução da espécie (Rich, 1980/2019, p.41)
Recuperando o que foi proposto pela antropóloga Gough, Rich (1980/2019) discorre sobre as formas com as quais o poder masculino se impõe sobre as mulheres em nossa sociedade e como isso se mantem a partir da normalização da heterossexualidade. Para as autoras esse poder se dá pela negação da sexualidade feminina e imposição da masculina, o controle do trabalho e dos filhos, pelo impedimento de sua livre circulação pelos espaços, pela consideração de que mulheres são objetos de troca nas negociações entre homens e, por fim, pelo controle de sua criatividade.
Estamos nos confrontando não com uma simples manutenção da desigualdade e da posse de propriedade, mas com um conjunto difuso de forças, que vão desde a brutalidade física até o controle da consciência, o que indica que uma enorme força contrária em potencial está precisando ser reprimida. (Rich, 2019, p. 48)
Nesse sentido a imagem da mulher vai sendo construída como um objeto, que serve aos desejos dos homens, uma mercadoria. As condições de dominação das mulheres passam pelo controle do campo material e simbólico, o que inclui a feminilização da pobreza e negação de aspectos que formam um sujeito, como a sexualidade e a criatividade, no que ela chama de uma patologia da colonização sexual. No entanto, os limites da nomeação dessa exploração esbarram na heterossexualidade compulsória, que aparece ideologicamente na forma do amor romântico. Nesse sentido, ela aponta a ideia de um afeto maternal das mulheres para com os homens e de como isso se expressa na exigência de amor complacente, que exige da mulher um acolhimento inclusive de seus agressores.
Zanello (2018) em pesquisa recente realizada no Brasil aponta como as queixas e o sofrimento que chega até a clínica psicológica tem um caráter de gênero. A autora evidencia como o sofrimento das mulheres se volta em grande parte para questões amorosas e da maternidade. Chamando a atenção para a necessidade de uma escuta atenta para as especificidades de gênero. No entanto, isso não se expressa de forma homogênea sobre as mulheres, nos estudos sobre lesbianidade a partir de uma experiência racializada, Dedê Fatumma (2023) aponta que
É imprescindível compreender a racialização do gênero, imbricado a outros marcadores de diferença, visto que, no campo das categorias de sexualidade, classe, diferenças geográficas, raciais e de gênero, a construção das relações de poder atinge a vida de mulheres negras dissidentes sexuais, produzindo ainda mais opressões e desigualdades” (p.38)
O texto de Rich (1980/2019) se volta para uma análise política da sexualidade, em suas palavras, “não pretendo fazer psicologia aqui, mas sobretudo identificar as fontes do poder dos homens (p.43). Mas pode contribuir clinicamente ao nos fazer pensar em como ao escutar nossos atendides podemos ouvir a ideologia que está ali enunciada, não só pelo atendide, mas também por nós terapeutas, ou seja, desde onde se escutar e desde onde se fala? Como propõem Santos (2023).
Em diálogo com ideias de Audre Lorde, Rich propõe que olhemos a nossa existência através do erotismo, que não se restringe a determinadas partes do corpo e ao campo amoroso. Pontua que a ausência de relacionamentos ou a rejeição ao casamento é avaliada como sinal de uma falta de erotismo na vida das mulheres, mesmo quando ele está presente em belíssimas produções artísticas, por exemplo. Para ela, ver a erótico apenas no âmbito das relações amoras faz com que vejamos a vida dessas mulheres como sem sensualidade, vidas amargas e invejosas do pênis.
Perceber a imposição da heterossexualidade tanto no seu aspecto de subjulgação da sexualidade feminina, quanto na naturalização dessas relações, traz à tona também o processo de resistência das mulheres e daquelas que insistem em buscar outras formas de eroticidade, inclusive em narrativas que sejam não brancas. Para a autora é necessário que recuperemos a história e a memória dessas mulheres para que o feminismo possa se questionar, necessidade que também pode ser tomada pela clínica.
Para Rich (1980/2019) devemos celebrar como revolução a não submissão das mulheres aos homens, mesmo que isso não seja entendido como revolucionário pela história. Esses laços e relações entre mulheres são marcados por um erotismo apagado, dado o apagamento da existência lésbica, da sexualidade entre mulheres e do racismo.
A heterossexualidade tem sido imposta de forma forçada e subliminar às mulheres. No entanto, as mulheres resistiram-na em todos os lugares, muitas vezes à custa de tortura física, aprisionamento, psicocirurgia, ostracismo social e extrema pobreza. (Rich, 1980/2019, p.73)
Com relação a função da violência e do abuso contra as mulheres Saffioti (2001) discute o caráter não apenas punitivo, mas também educativo, que busca infringir medo e ensinar as mulheres sobre sua conduta. Para Rich (1980/2019) as mulheres se mantêm na heterossexualidade para se sentirem normais ao cumprirem o dever e a realização do amor heterossexual. No poema citado na introdução a ideia de norma aparece na fala do médico, na proposta da produção de um corpo normal e na família como o que deve ser valorizado. Essa normativa, segundo a autora
Retira a energia dessas mulheres ao mesmo temo que drena a energia das lésbicas ‘no armário’ – a energia que se esgosta na vida dupla. A lésbica presa no ‘armário’, a mulher aprisionada nas ideias prescritivas do ‘normal’, compartilham a dor de opções impedidas, conexões interrompidas, do acesso perdido à autodefinição assumida de forma livre e vigorosa. (Rich, 1980/2019, p.82)
A crítica feminista do ponto de vista das lesbianidades traz o questionamento radical da família, como lugar de amor e realização. Através das elaborações de Rich (1980/2019) pode-se pensar também na violência e marginalização para as mulheres que não se voltam primordialmente para os homens.
a poética do erotismo
Os patriarcas brancos nos disseram: “penso, logo existo”. A mãe negra dentro de cada uma de nós – a poeta – sussurra em nossos sonhos: ‘Sinto, logo posso ser livre’. (Lorde, 1984/2019b,p.47)
O texto selecionado de Audre Lorde é de 1984 e foi originalmente publicado no livro “Irmã Outsider” que é composto por ensaios e conferências da autora, trabalho que foi recentemente traduzido para o português e que traz os temas da política, do sexismo, do racismo, entre outros, a partir de reflexões e experiências pessoais.
Em “Os usos do erótico: o erótico como poder” Lorde relata sua experiência de encontro com a eroticidade, tema que está fortemente ligado ao sentir, a produção de poesia e a relação com outras mulheres. Ele inicia-se com um chamado para aquilo que está oculto ou não reconhecido
Existem muitos tipos de poder, reconhecidos ou ignorados, utilizados ou não. O erótico é um recurso intrínseco a cada uma de nós, localizado em um plano profundamente feminino e espiritual, e que tem firmes raízes no poder de nossos sentimentos reprimidos e desconsiderados. (Lorde, 1984/2019a, p.66)
Para ela uma das formas de controle e de opressão vigente em nossa sociedade é o apagamento da cultura e das formas de resistência, um projeto de extermínio que é denunciado ao longo de toda sua obra. Trazendo críticas contundentes ao racismo presente no feminismo e a lesbofobia da comunidade negra, ela evidencia a recusa em valorizar os laços entre mulheres, principalmente entre mulheres negras. Nega-se assim uma eroticidade própria para essas mulheres, uma vez que ela só aparece como possibilidade a partir de um lugar de inferioridade, o que ela nomeia como pornografia, ou seja, exploração de nosso erotismo, que pode ser entendido como a energia despendida aos homens, em seu prazer ou cuidado. Ou ainda, quando não assim submetido, aparece como sinal de desvio e suspeita.
Esse apagamento de uma história não heterocentrada das mulheres negras cria um referencial branco de existência da lesbianidade. Pensando que essas formas de dominação passam por um desaparecimento histórico, Lorde (1984/2019e) pontua o racismo expresso pelas feministas brancas, ao apagar as histórias das mulheres negras ou então por trazer a negritude em uma perspectiva de violência. Segundo a autora isso abre caminho para a extinção da existência lésbica e das possibilidades de encontro entre mulheres, uma vez que significa o apagamento de parte significativa da história desses encontros.
Para Lorde (1984/2019a), o erótico se refere a possibilidade de acessar o desconhecido, o irracional, aquilo que está na ordem do sentir. Dando outros sentidos a nomes que o patriarcado e o racismo usam para nos desqualificar, sensível, emotiva, irracional, descontrolada, promiscua, raivosa, perigosa etc. O controle e a opressão feminina geram uma relação de desconfiança com o sentir e a busca por sua supressão ou silênciamento.
Essas formas de opressão operam na produção da desqualificação e na oferta do silêncio como um caminho possível de um suposta segurança ou partilha de poder para corpos que estão foram do que ela chama de “norma mítica”. Em outro ensaio do mesmo livro, Lorde (1984/2019c) propõem que as mulheres ergam a voz, uma vez que, o silêncio não nos protege das violências, e sim nos vulnerabiliza mais.
Uma paciente me relata na clínica como se sente achatada pela vida, sem almejar muita coisa, relata preferir não sentir, uma vez que se conectar a isso exige que ela manifeste seus sentimentos, no entanto, não havia espaço para isso. O silenciamento sobre ela operava nos questionamentos constantes que fazia sobre a pertinência do que sentia ou por não acreditar que alguém pudesse ouvi-la. Esse é apenas um recorte do que a paciente traz e pode ser interpretado de diversas formas. No entanto, gostaria de pensar, junto com Audre Lorde, nesse sentir que precisa ser afastado, que não encontra validação, seja do próprio sujeito ou no reconhecimento do outro.
A opressão gênero, na concepção de Lorde (1984/2019a), faze com que a força do erótico seja ‘sugada’ pelos homens em prol da manutenção de suas vidas. Ela pontua que a potência desse sentir pode ser percebida nessa relação de exploração, colocando as mulheres em uma condição que ela chama de psicologicamente ordenhadas.
Isso se apresenta, ao meu ver, na exploração do trabalho emocional exercido pelas mulheres em relações românticas, familiares, de amizade ou de trabalho, que muitas vezes colocam sua capacidade de sentir em prol da união da família, no amparo ao companheiro ou no cuidado de outras famílias. Colocar o sentir em prol daqueles com quem se relaciona não configura por si só uma relação de exploração, no entanto, esse é um papel constantemente exigido da mulher seja como obrigação ou como vocação e sem nenhum reconhecimento.
O erotismo usado em nome próprio oferece força e a possibilidade de se relacionar de outras formas com o fazer e com o outro, nas palavras da autora “o erótico não diz respeito apenas ao que fazemos; ele diz respeito à intensidade e à completude do que sentimos no fazer.” (Lorde, 1984/2029a, p.68)
A ideia de encontro e conhecimento de si a partir do erótico não aparece como a construção de uma identidade, ou do encontro com um eu, mas sim, como já foi pontuado, ele se ancora na possibilidade de sentir e se movimentar a partir disso. Pensando isso, no trabalho da clínica encontro ecos em Santos (2023) sobre o processo de travessia, que não se trata do estabelecimento ou consolidação do eu, mas deum mergulho que permite o ressurgimento. Entender a heterossexualidade como uma política abre espaço para escutarmos um caminho para a sexualidade que não é da ordem do encontro com si mesmo, e sim de desencontro com o suposto lugar da mulher.
Para Santos (2023), um diagnóstico ético que não se volta para a patologização deve estar atento a força pulsional, aquilo que afeta o sujeito e os destinos desse afeto, possibilitando assim uma ampliação do campo dos sentidos a partir de uma reavaliação do plano vital. Lorde, ao buscar definir o erótico destaca a vivência da profundidade do sentir.
O erótico é uma dimensão entre as origens da nossa autoconsciência e o caos dos nossos sentimentos mais intensos. É um sentimento íntimo de satisfação, e, uma vez que o experimentamos, sabemos que é possível almejá-lo. Uma vez que experimentamos a plenitude dessa profundidade de sentimentos e reconhecemos o seu poder, em nome de nossa honra e de nosso respeito próprio, esse é o mínimo que podemos exigir de nós mesmas. (Lorde, 1984/2019a, p.67)
Encontro em Lorde (1984/2019a) uma celebração do erótico a partir dessa avaliação de um plano vital, ou seja, um reposicionamento do sujeito e a possibilidade de almejar outra forma de fazer e de exercer sua eroticidade. Para ela é necessário que as mulheres reexaminem a qualidade e os aspectos de suas vidas, de modo a modificar nossa forma de movimentação. Seguimos assim os caminhos trilhados por Lorde, para escutarmos a pulsão nessa perspectiva de sentido e força vital, “quando falo do erótico, então, falo dele como uma afirmação da força vital de mulheres” (Lorde, 1984/2019a, p.69).
Para ela, assim como para Rich, essa reavaliação apresenta um perigo para a ordem social e por isso é interditado, produzindo corpos desafetados.
O horror maior de qualquer sistema que define o que é bom com relação ao lucro, e não as necessidades humanas, ou que define as necessidades humanas a partir da exclusão dos componentes psíquicos e emocionais dessas necessidades – o horror maior de um sistema como esse é que ele rouba do nosso trabalho o seu valor erótico, o seu poder erótico e o encanto pela vida e pela realização. (Lord, 1984/2019a, p.68)
É nessa desafetação que ela encontra a pornografia operando. Aqui quero afastar a ideia do que se considera no senso comum como pornográfico e trazer a reflexão feita pela autora sobre a qualidade do desejo. O erotismo é uma expressão que busca trazer à tona a singularidade, já a pornografia se apresenta como força do que Santos (2023) denomina de opacidade colonial. Para Lorde “a pornografia enfatiza sensação sem sentimento” (Lorde, 1984/2019a, p.67), o que para ela é um abuso do sentir, que busca subjugar e tirar o erótico de sua vitalidade
Ela localiza seu encontro com o erótico não em parâmetros externo, mas sim no seu corpo, na possibilidade de ouvir o que faz o corpo expandir, “ressaltar de forma franca e destemida a minha capacidade de gozo” (Lorde, 1984/2019a, p.70). Nesse sentido o texto tem como proposta fazer uma provocação sobre nosso sentir, buscando uma eroticidade que não fica relegada ao quarto do casal heterossexual, ou ao cuidado com a família. O saber convocado nessa perspectiva é um saber no qual não se sabe algo, é um saber do sentir.
Essa autoconexão compartilhada é uma extensão do gozo que me sei capaz de sentir, um lembrete da minha capacidade de sentir. E esse saber profundo e insubstituível da minha capacidade para o gozo acaba por exigir que minha vida inteira seja vivida como a compreensão de que tal satisfação é possível, e de que ela não precisa ser chamada casamento, nem deus, nem de vida eterna. (Lorde, 1984/2019a, pp. 70-71)
Lorde (1984/2019ª) traz ainda o encontro com outras mulheres e a possibilidade de partilha da eroticidade e de formas de se relacionar com o outro, diferenciando relação e uso. Para a autora só a partir da escuta de nossa própria eroticidade que podemos fazer relação e não uso exploratório do outro. Ouvindo nosso sentir podemos produzir trocas e partilhas na qual a outra deixa de ser outra usada como objeto de satisfação e possa ser uma abertura para a diferença, que estrangeira também encontra morada em nossos corpos.
Essa perspectiva feminista traz questões importantes sobre o lugar da mulher e sobre a organização familiar na estrutura de opressão de gênero e raça, uma realidade que não pode ser desconsiderada. A busca que faço nesse texto não é da afirmação da existência das lésbicas e/ou das mulheres, mas uma leitura sobre suas condições. A proposta das autoras é uma sexualidade que seja construída na busca e na relação com outras mulheres e não submetida ao desejo dos homens e do racismo. Elas apregoam a busca de um conhecimento a partir de outras mulheres e de si mesmas. Buscam assim jogar luz para as relações entre mulheres, que por não comportarem a lógica heterossexual, são diminuídas ou apagadas, mas não deixam de criar resistência. Politizando as relações elas retiram a sexualidade do campo estritamente pessoal.
Ambos os textos podem ser entendidos como um convite a novos debates que não tenham uma perspectiva heterocentrada e de dominação masculina e racial. Assim podemos seguir o caminho das autoras e trazer luz para a construção do nosso desejo. Nossa escuta, a partir das reflexões dessas autoras, pode se voltar para o erótico e não para o diagnóstico, ou então para um diagnóstico ético, como pontua Santos (2023).
Por fim ressalto que o pensamento de autoras lésbicas sobre a questões aqui levantadas e tantas outras coisas não são necessariamente convergentes, uma vez que somos plurais. Esse é um trabalho que busca explorar a obra de duas autoras e também convida para que outros textos possam ser estudados no campo da psicanálise.
Em excerto do poema “Precisar: um coro para vozes de mulheres negras”, Lorde clama e nos interroga. Para os analistas, que possamos enfim ouvir
Desconfio de precisar
que tem gosto de destruição.
Desconfio do precisar que tem gosto de destruição.
Quem só aprende a me amar
pela boca dos meus inimigos
caminha à margem do meu mundo
como um fantasma em uma capa carmesim
e os livros de sonhos falam em dinheiro
mas meus olhos dizem morte.
A parte mais simples deste poema
é a verdade em cada uma de nós
com a qual está falando
Quanto dessa verdade eu posso suportar ver
E ainda viver
sem me cegar?
Quanto dessa dor
eu posso usar?
“Não podemos viver sem nossas vidas”
“Não podemos viver sem nossas vidas” (Lorde, 1979/2023, p. 209)
Referências
Bento, C. (2022). O pacto da branquitude. Companhia das letras
Carvalho, M. C. V., Calderaro, M. D., & Souza, L. E. P. F. (2013). O dispositivo “Saúde de Mulheres Lésbicas”: (In)visibilidade e direitos. Psicologia Política, 13(26), 111-127.
Cunha, E. L., & Stona, J. (2024). O lugar da identidade na clínica psicanalítica. In Cunha, E. L., Stona, J. & Coelho, D. (Eds.), Psicanálise, gênero, fronteiras. DeVires Editora.
Gonzalez, L. (2020). Racismo e sexismo na cultura brasileira (Originalmente publicado em 1984). In F. Rios & M. Lima (Orgs.), Por um feminismo afro-latino-americano (pp. 97-123). Zahar.
Grahn, J. (2020). A psicanálise de Edward a Sapatão (A. Freitas, Trad.). Rio de Janeiro: A Bolha. (Trabalho original publicado em 1969) Disponível em https://abolha.com/2020/04/28/a-psicanalise-de-edward-a-sapatao/
Gumbs, A. P. (2021). Cápsula do tempo para o inesquecivel. In Clarke, C., Vivendo como uma lésbica (pp. 13-20). A Bolha.
Fatumma, D. (2023). Lesbianidades. Jandaíra.
Lorde, A. (2019a). Os usos do erótico: O erótico como poder. In Lorde, A., Irmã outsider: Ensaios e conferências (pp. 66-74). Autêntica. (Trabalho original publicado em 1984).
Lorde, A. (2019b). A poesia não é um luxo. In Lorde, A., Irmã outsider: Ensaios e conferências (pp. 44-48). Autêntica. (Trabalho original publicado em 1984)
Lorde, A. (2019c). A transformação do silêncio em linguagem e ação. In Lorde, A., Irmã outsider: Ensaios e conferências (pp. 49-54). Autêntica. (Trabalho original publicado em 1984)
Lorde, A. (2019d). As ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa-grande. In Lorde, A., Irmã outsider: Ensaios e conferências (pp. 137-141). Autêntica. (Trabalho original publicado em 1984)
Lorde, A. (2019e). Carta aberta a Mary Daly. In Lorde, A., Irmã outsider: Ensaios e conferências (pp. 83-89). Autêntica. (Trabalho original publicado em 1984)
Lord, A. (2023). Outono (Trabalho originalmente publicado em 1980). In Lord, A. Entre nós mesmas poemas reunidos (pp. 187 -189). Bazar do tempo
Lord, A. (2023). “Precisar: um coro para vozes de mulheres negras” (Trabalho originalmente publicado em 1979). In Lord, A. Entre nós mesmas poemas reunidos (pp. 197 -209). Bazar do tempo
Rich, A. (2019). Heterossexualidade compulsória e existência lésbica (Originalmente publicado em 1980). In Rich, A. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica & outros ensaios (pp. 27- 108). A Bolha.
Ruggieri, M. (2023). De Adrienne Rich a Judith Butler–ou do feminismo lésbico à teoria queer. Revista Letras, 107(1)
Santos, K. Y. P. dos. (2023). Por um fio: Uma escuta das diásporas pulsionais. Ed. do Autor.
Saffioti, H. I. B. (2001). Contribuições feministas para o estudo da violência de gênero. Cadernos Pagu, 16, 115-136.
Zanello, V. (2018). Saúde mental, gênero e dispositivos: Cultura e processos de subjetivação. Appris Editora.
1 Trago excertos de poemas nesse trabalho buscando dar relevância para a estreita relação entre as autoras aqui citada e a poesia, segundo Lorde (1984/2019b) poesia não é um luxo para as mulheres, é uma necessidade vital.
2 Seboulisa é a deusa de Abomei, a “mãe de todos nós”, no panteão Daomeniano. É também a representação local de Mawulisa e, às vezes, conhecida como Sogbo, criadora do mundo. (Nota do tradutor presente no original).
3 https://www.aicinema.com.br/teste-de-bechdel-bechdel-test-o-que-e-e-para-que-serve/
4 Uma diferenciação entre lesbianidade e vínculo entre mulheres que por vezes se borra no texto, inclusive pela ideia de continuum lésbico que ela apresenta. No texto de posfácio, em diálogo com editoras, ela diz da confusão gerada pela ideia de que lesbianidade e relação entre mulheres possa ser a mesma coisa, sendo inclusive apropriado por movimentos de mulheres que dizem de uma lesbianidade política. Porém, seu objetivo não era igualar as coisas, mas sim buscar um conceito que comtemplasse a diversidade das formas de laços entre mulheres.

Andressa Benini Mendes é Psicóloga graduada pela Unesp/Assis, pós-graduada em Psicanálise e Relações de Gênero: Ética, Clínica e Política pelo IPPERG, mestre em ciências pela Esalq/USP. Sapatão dissidente, psicóloga clínica em diálogo com a psicanálise e redutora de danos, tem como temas de interesse gênero, sexualidade e suas interseções, saúde mental e direitos humanos.

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