As transferências de trabalho… – Texto em PDF

Martin Magalhães


RESUMO

O ensaio a seguir trata-se de considerar as transferências de trabalho como um mercado de saber, e isso reflete na segregação e no laço social entre analistas em formação que vivem em escassez, sendo um “mercado das transferências”, conceito cunhado por Roberta Matos (2022). Há uma lacuna na história da psicanálise ao se falar pouco sobre as condições materiais e sociais da formação analítica, principalmente sobre a falta de dinheiro para sustentar tal posição. Com isso, proponho explicitar as desigualdades sociais no nosso campo, questionando como sustentar a formação analítica diante da segregação oriunda de classe social. Como hipótese, é preciso criar laço social, mas é preciso pagar algo para isso. A partir da noção de mercado de Exu, elaborada por Wanderson Flor do Nascimento (2016), proponho interrogar outras possibilidades de circulação do trabalho, do saber e do reconhecimento, nas quais a troca possa sustentar os laços sociais para além da acumulação e da competição.

PALAVRAS-CHAVE

Transferências; Mercado; Saber; Formação; Segregação.

A partir deste ensaio teórico-reflexivo, o objetivo é analisar como as condições materiais e sociais da formação psicanalítica atravessam as transferências de trabalho entre analistas, produzindo formas de circulação do saber, do reconhecimento e das oportunidades que podem operar como mecanismos de segregação. A partir de uma escrita situada na experiência de um psicanalista trans, periférico e de origem popular, proponho articular os conceitos de transferência de trabalho, mercado de saber e mercado das transferências à discussão sobre classe, raça e gênero, interrogando as possibilidades de construção de outras formas de circulação e laço social. A experiência é tomada como ponto de partida para interrogar as condições materiais e sociais que atravessam a transmissão da psicanálise, articulando vivências pessoais a conceitos psicanalíticos e contribuições de autores que discutem as relações entre subjetividade, poder e desigualdade social. Pretende-se considerar uma experiência singular para utilizá-la como perspectiva de análise das formas de circulação e segregação presentes no campo psicanalítico.

Através do desejo de saber me enveredei pela psicanálise, buscando significar os sonhos que tinha, preocupado com o meu futuro. Ao iniciar a minha própria análise, outras questões surgem, como ao me deparar com a minha transição de gênero desde a infância, mas que eu precisava ascender economicamente para poder assumir isso na minha vida. Junto a isso, questionei a minha origem, descobrindo uma consciência de classe e raça. Foi por meio da minha formação analítica que foi possível interrogar a minha posição social. Dessa forma foi possível fazer meu nome começar a circular, reconhecendo como a autorização ocorre através de alguns outros, e não sem os atravessamentos pela minha identificação, seja enquanto homem trans e de origem periférica e interracial. Ainda sim, o medo da escassez permanece, visto que uma ascensão econômica não é a mesma que uma ascensão social, pois a falta de pertencimento permanece.

Lélia Gonzalez (1984) dá a letra quando diz que “o lixo vai falar e numa boa”, enquanto Paul Preciado (2022) intervem como o monstro que vos fala, que reflete o lugar de fala das subalternidades que hoje ocupam lugares de saber e poder, como no campo psicanalítico, sendo estes negros, indígenas, trans, travestis, gays, lésbicas, bissexuais, deficientes, etc. Psicanalistas ocupam uma função, mas existe um sujeito por trás dessa função que diz de uma posição social, e isso muda como a produção de sustento próprio necessário para a subsistência, como Isildinha Baptista Nogueira (2021) tece em seu ensino.

A função de analista não apaga o sujeito que a sustenta, tampouco as condições sociais e materiais que atravessam sua existência. Se a economia libidinal se constitui também em relação às estruturas sociais e políticas, a formação psicanalítica não é independente das condições de acesso ao saber, ao trabalho e à subsistência. A questão, portanto, vai além do desejo de ocupar a função de analista, pois inclui as condições que permitem sustentar essa posição no laço social. Para Safatle (2008), a economia libidinal designa o modo como os desejos, afetos e pulsões humanas são capturados, moldados e mobilizados pelas estruturas sociais e políticas, especialmente pelo capitalismo e pelo neoliberalismo. Com isso, o sujeito é capturado a investir libidinalmente em si mesmo, como empreendedor de si, se comparando com o outro que tem sucesso, mas não as mesmas oportunidades, transformando o próprio esgotamento e sofrimento em desempenho e espetáculo.

Para isso, precisamos considerar o que é não-pouco a receber e não-pouco a pagar, como Neusa Santos Souza (1989) nos atenta. “O dinheiro entra na relação terapêutica não como significante, mas como signo” (Souza, 1989, p. 245). Esse signo é como uma moeda, que tem dois lados e isso se coloca em jogo a partir da relação transferencial. O dinheiro não se reduz à sua dimensão monetária, pois faz parte da própria constituição da relação transferencial, que permite que aconteça análise e ao mesmo tempo o que pode impedir. Contudo, proponho deslocar para as relações entre analistas, como um modo de considerar a circulação de dinheiro à circulação de pacientes, supervisões, convites e reconhecimento. Isso consiste em fazer o próprio nome circular como forma de reconhecimento, o qual se faz no laço social, com os pares, mas que estamos cada vez mais isolados, pelo custo de vida cada vez mais alto exigindo que trabalhemos mais, entre outros impasses.

O mercado de saber que Lacan (1968-1969) se refere já ocorre há um tempo, com o intuito de lucrar através de um efeito pirâmide, não é à toa que é cada vez mais custoso investir numa formação de psicanálise. A melhor maneira de pensar as problemáticas do campo analítico hoje é em conjunto, tendo em vista a possibilidade de a individualidade estar na coletividade e vice-versa, tendo efeitos de uma consciência coletiva. Para tanto, aprofundamos do que se trata a psicanálise, pois mesmo tendo embasamento dos aspectos socioculturais e políticos, ainda não deixamos de ser analistas, muito pelo contrário, a sociedade, a cultura e a política faz parte da psicanálise e vice-e-versa, não se separam, Freud (1921) já anunciava isso para nós, dizendo que a Psicologia individual é ao mesmo tempo social.

Podemos articular o que resta de uma formação, construindo em conjunto formas de como considerar as subjetividades de nosso tempo, com analistas que sofrem da desigualdade social dentro do campo. O saber da psicanálise não é o trabalho em si, mas gera o valor. Portanto, o valor se encarna no dinheiro, mas o saber também vale dinheiro. É preciso que o saber se torne uma mercadoria, mas não para a acumulação de bens para a burguesia, e sim como distribuição de renda e reparação das classes minoritárias. O mercado de saber que Lacan (1968-1969) se refere já ocorre há um tempo, com o intuito de lucrar através de um efeito pirâmide, não é à toa que é cada vez mais custoso investir numa formação de psicanálise hoje. “Muita gente de nível universitário muito bom e de qualidade muito boa não entra na Sociedade porque vai fazer formação paralela, que não é tão cara” (Martins; Leite, 2017, p. 143), relata autores sobre uma reunião no Instituto Durval Marcondes em 1986, refletindo sobre o custo da formação analítica desde então.

Há um tabu nos muros das Escolas psicanalíticas em falar sobre o custo da formação, gerando um silêncio e um incômodo ao redor do tema. Passados quase 50 anos vemos como as coisas continuam semelhantes, com altas mensalidades para fazer uma formação, como a própria análise pessoal e o investimento na supervisão clínica. O que diferencia os tempos atuais é a criação de uma modernização da formação analítica, se posso dizer dessa forma, apesar de não estarmos mais na modernidade, mas como explicaria uma formação ser paga “como se fosse uma Netflix?” Me refiro às plataformas, que vendem cursos em que as pessoas interessadas podem assistir quando quiser. “Pagando bem, que mal tem, não é mesmo?” Fora os analistas que oferecem formação via instagram cobrando um pacote por aulas durante um semestre, como forma de garantir que não desistam no meio do caminho e queiram cancelar a sua compra. A formação que era sobre desejo se tornou um grande mercado.

Desde a criação da psicanálise, a luta de classes sempre esteve situada com a implementação das Clínicas públicas de Freud (Danto, 2005), sendo a partir dos atendimentos gratuitos para àqueles que não poderiam pagar serem tratados. Além disso, a psicanálise foi transmitida como uma peste, como disse Freud (Lacan, 1955), com o receio do que ela se tornaria, devendo ser acessível para toda a população. Entretanto, ela se enveredou por outros rumos, elitizando um campo que deveria ser popular e democrático.

Aprendemos com a esquerda machista (Levine, 1974) a nos organizar, que propõe ser progressista, com uma luta de classes de homens para homens, foracluíndo outros corpos, e matando-os dentro do teor estrutural, institucional e inconsciente, seja pelo racismo, pela transfobia, homofobia, misoginia, capacitismo e classismo. As relações são de poder, é preciso incluir todos os corpos como um todo, considerando a materialidade e a identidade, sem neutralidade.

Há tempos vemos quem ocupa o lugar do analista, geralmente homens cis brancos de classe média e/ou alta, algo que vem mudando no contexto contemporâneo. Entretanto, a psicanálise é para quem? Há um valor de uso e um valor de troca na dialética entre Lacan e Marx, ou seja, onde há escuta e pagamento há trabalho, portanto os psicanalistas trabalham, isso quer dizer que já há uma regulamentação, visto que há critérios de sua formação institucionalmente, porém não legalmente. A formação analítica é uma formação do inconsciente, na qual precisamos nos submeter em nossa própria análise, a isso, adicionamos a supervisão e os estudos da teoria constante por tempo indeterminado, e para isso há um preço a pagar, que é caro. Não se vive apenas do desejo do analista, por mais que seja a ética da psicanálise. A questão que fica é como sustentar essa formação. Falamos aqui de percursos de análise de décadas, não que nos baseamos em tempo cronológico, logicamente, porém, um processo analítico que atravesse de fato pelas fantasias do sujeito, pelo desejo, pelo sintoma, etc.

Pensando nessa lógica, a mais-valia, conceituada por Karl Marx (1867) e apropriada por Lacan, é produzida no discurso capitalista como resultado da diferença entre o valor gerado pelo trabalho e aquele recebido pelo trabalhador, sendo totalmente desigual, em que se trabalha muito para ganhar pouco, enquanto a indústria/patrão fica com o lucro. Lacan (1968-1969) estabelece uma homologia entre a mais-valia e o mais-de-gozar, situando este último na função do objeto a, como um excedente articulado à perda introduzida pela linguagem e à tentativa de recuperação de gozo. Se a mais-valia permite interrogar o que é extraído do trabalho, o mais-de-gozar permite situar a produção de um excedente que não se reduz ao valor de troca. O que se lucra daquilo que sobra? Como lucrar daquilo que sobra quando se sobrevive apenas com o básico? Neusa Santos Souza (1989) questiona o que é não-pouco a receber e não-pouco a pagar, endereçando essa questão ao analisando na negociação do valor da sessão. Na transferência entre analisando e analista, há um preço, que não corresponde a uma média universal, pois o pagamento é tratado pela psicanálise de forma singular, caso a caso. Mas, nas transferências entre analistas, qual é o valor de troca? O que se produz e circula para além do pagamento financeiro? E quem pode se beneficiar desse excedente?

O laço social se inscreve aqui, sendo a confiança deste laço formado um dos pilares para uma indicação e outras formas de reconhecimento do trabalho analítico. Porém, como se faz laço em meio a segregação? É preciso de socialização, e nisso há o deslocamento de vários analistas dos subúrbios e periferias para os centros, isolados pelo custo de vida na cidade, tentando se manter para além da sobrevivência. Fazer laço social têm custo, do transporte para o deslocamento, do almoço ou jantar em algum espaço, e o tempo disponível para ir e voltar, considerando que voltar tarde para alguns não é uma possibilidade pelo horário dos transportes públicos e também depende do perigo do seu território.

Lacan (1953) diz que o dinheiro é o objeto mais mortífero de todos, pois cria a ilusão de ter valor em si. Entre cara e coroa, quanto é que sobra no prato da classe trabalhadora? Quem indica quem? Como se dá o laço social entre analistas? O mercado das transferências (Matos, 2022) está aí, na transferência entre analistas, no laço que se faz entre pares, para fortalecer a ascensão social da classe trabalhadora, e transferir a reparação que é em real. Este é um conceito desenvolvido pela Roberta Veloso Matos (2022) para considerar a circulação de trabalho entre analistas, seja indicações de pacientes, supervisionandos, convites de aulas, parcerias, como forma de reconhecimento. Este mercado pode ser desenvolvido através do mercado do saber e da transferência de trabalho na teoria lacaniana. Se diferenciando, primeiramente, da transferência entre analista e analisando.

A transferência na psicanálise revela sobre o amor de transferência (Freud, 1915), e nela surgem identificações, em que cada analisando cria um tipo de transferência com o analista, e identificar isso é preciso para o manejo do caso. Há uma atuação do sujeito que repete e encena, projetando o que vive na relação com o analista. “O amor, sem dúvida, é um efeito de transferência, mas em sua face de resistência. Estamos presos em esperar esse efeito de transferência para poder interpretar e, ao mesmo tempo, sabemos que ele fecha o sujeito ao efeito de nossa interpretação” (Lacan, 1964, p. 246). Não podemos esquecer que o ódio anda junto do amor, e portanto, alguns os sentimentos são ambíguos.

Podemos nos situar bem longe da condenação ascética do dinheiro, e no entanto lamentar que a terapia analítica, por razões externas e internas, seja quase inacessível para os pobres. Quanto a isso não há muito o que fazer. Talvez haja verdade na afirmação frequente de que sucumbe com menor facilidade à neurose aquele a quem as necessidades da vida fazem trabalhar duramente. Indiscutível é sem dúvida uma outra experiência, a de que um homem pobre que produziu uma neurose dificilmente se livra dela. São muito bons os serviços que ela lhe presta na luta pela autoafirmação; o ganho secundário trazido pela doença é muito importante para ele (Freud, 1913, p.177-178).

A psicanálise e as questões com o dinheiro estão atreladas à própria resistência que é dos analistas, como já disse Lacan (1954-1955). Mas há uma outra resistência dos analistas, que é de poder criticar Freud e Lacan. Temos muito o que considerar deles, não sem o rigor crítico, visto que vivemos em outro tempo e podemos elaborar melhor para não repetir discursos violentos, sem cair num equívoco de suas leituras.

Por que a resistência do pobre poderia ser maior, que gera um ganho secundário? Ele não se livra da neurose tão facilmente, mas o rico sim? É só pagar? A consciência de classe é algo complicado na sociedade brasileira, diante disso, “o trabalho deixou de ser o eixo da identidade” (Instituto Humanitas Unisinos – IHU, 2026, s/p.), por isso, há uma dificuldade em reconhecer a sua origem. Vemos um equívoco na leitura freudiana em achar que o pobre não se livra tão fácil quanto o rico de sua neurose, pois cada caso é um caso, e não podemos estereotipar uma identidade por uma leitura equivocada. É diferente de considerar que é preciso ter cuidado na transferência quando o pagamento é algo difícil de manejar, onde muitas vezes o sujeito precisa pagar de fato, mas que seja o quanto vale e não o valor que o analista possa gozar na posição de mestre.

A questão acerca do gozo permite interrogar as relações de saber-poder que atravessam a formação analítica. No discurso do mestre, Lacan (1969-1970) situa o significante-mestre (S1) no lugar de agente, dirigindo-se ao saber (S2), enquanto o objeto a aparece como produção. Essa estrutura permite pensar como o saber pode ser colocado a serviço de uma posição de domínio. Nas transferências de trabalho entre analistas, interessa interrogar como determinadas posições de autoridade se constituem e se sustentam, inclusive pela possibilidade de indicar, reconhecer ou não reconhecer o trabalho de outros. Se a formação depende também da circulação entre analistas, o que acontece quando essa circulação fica submetida àqueles que concentram o reconhecimento e as oportunidades de transmissão?

O analista ocupa o lugar da causa do desejo, operando a partir de uma renúncia ou esvaziamento do próprio gozo fálico para fazer o lugar do vazio, sendo um lugar de desprazer e prazer que busca satisfação. No caso do analista seria ocupar um lugar de saber que é de poder, que reivindica um preço alto a ser pago como condição de manter sua reputação, entretanto, não é essa a posição do analista, e sim do mestre, que é autoritário e pode exercer determinado poder no setting analítico, pois se um ocupa o lugar de saber o outro é o de não-saber, e quem sabe é apenas o inconsciente do analisante, deixando cair o lugar de suposto saber do analista (Rodrigues, 2024).

A transferência pode transformar o sujeito, mas será que a psicanálise pode ser transformada por ele? (Laufer, 2018). A psicanálise é uma forma de pensar o amor, não a sexualidade, por mais que sejam confundidas. Com isso, podemos pensar em como a transferência é transformadora e pode operar em conjunto do mercado das transferências? A transferência é o que possibilita e o que pode impedir uma análise de acontecer, vale tudo.

O Banquete de Platão é situado no seminário do Lacan (1960-61), que consiste numa reunião de intelectuais de elite, em que Sócrates guarda um segredo, que é querer saber o que é o amor. Logo, entre amante e ser amado se formula uma questão, a de saber se o que tem no amado é a mesma falta que tem no amante. A resolução disso se estrutura no que as relações manifestam, uma inadequação, como um desajustamento, de que não há um encaixe, e portanto uma falta não complementa outra, que o amante e o amado ambos a possuem. É através disso, que Lacan elabora que “amar é dar o que não se tem” (Lacan, 1960-61, p. 46), representando uma significação do amor de forma metafórica, que consiste em dizer que para amar é preciso reconhecer em si a própria falta, em ser faltante, incompleto e mortal (Gobbato, 2001).

As relações se tornam significantes através de algo que nos marca, e isso se aprende através do próprio inconsciente, visto que as relações de poder estão presentes o tempo todo. Ao mesmo tempo que toda relação é amorosa, ela também é de ódio, uma vez que o ódio e o amor andam juntos. Portanto, se transfere o amor, o ódio, as fantasias atreladas a outras relações para a figura do analista (Gobbato, 2001).

Já a transferência de trabalho consiste no vínculo entre analistas que se identificam através de uma transmissão do saber analítico: “o ensino da psicanálise só pode transmitir-se de um sujeito para outro pelas vias de uma transferência de trabalho” (Lacan, 1964, p. 242). E ainda: “um saber que passa pelo companheirismo faz da mestria outra função” (Lacan, 1970, p. 307). Ou seja, a relação de transmissão está atrelada à transferência de trabalho e ao companheirismo, que representa a relação entre analistas como uma forma de fazer laço. Para Mariotto (2017), a educação como forma de aprendizagem e conhecimento é transmitida mais pela relação que se constrói do que pelo conteúdo transmitido. Isso é de suma importância para considerarmos o quanto um vínculo tem função para a continuação da psicanálise, visto que não é possível teorizar sem vivenciar na prática, e a transferências de trabalho contribui para a convivência com os pares, entre transferências amorosas e de hostilidade, pois os sentimentos são de ambiguidade.

No entanto, como podemos escutar sobre as relações sociais que permeiam a classe trabalhadora, quando as 24 horas não são as mesmas para todas as pessoas? Quando o tempo é algo tão precioso e custoso, sendo consumido pelo deslocamento do transporte, e trabalhando mais para ter o mínimo. Nem todos os analistas em formação ocupam a mesma classe, a desigualdade não é só de classe, é de raça e de gênero também, visto que as pessoas com mais poder aquisitivo da classe de analistas geralmente são brancos, cisgêneros, da alta classe, geralmente homens (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada- IPEA, 2026). Como podemos operar com essas transferências, transmitindo-as no nosso campo?

Curiosamente, vejo como existe também a segregação nas diferenças, entre a própria classe trabalhadora, tentando separar o que é material do que é identitário, e tem como? Isso é o que o próprio neoliberalismo sistematiza, para criar conflitos entre nós mesmos através das nossas diferenças. Logo o Brasil, um país tão diverso, seja em raça, classe, gênero e sexualidade, como lidar com essas diferenças que já fazem parte do nosso território há muito tempo? Esse estranhamento é familiar.

A segregação pode ser pensada através dos campos de concentração de extermínio nazista, que separava judeus, comunistas, homossexuais, deficientes, etc. para serem mortos pela sua própria identidade e/ou nacionalidade (Askofaré, 2009). A segregação no campo psicanalítico não se reduz ao efeito das desigualdades econômicas contemporâneas. Ela também se inscreve em uma organização social historicamente constituída pelo colonialismo e pela colonialidade do poder (Quijano, 2005), que articula classificações raciais, divisão do trabalho e hierarquias de saber. Nesse sentido, quem pode sustentar sua formação, quem é reconhecido como capaz de transmitir e quem permanece na posição de objeto de um saber produzido por outros?

Paul Preciado (2022) chama a atenção ao questionar aos analistas brancos, cisgêneros e burgueses se eles não teriam identidade também. Na psicanálise muito se problematizou sobre isso, como falar sobre identidade e identitarismo não é ocupação de psicanalista fazer, como Roudinesco tece em sua teoria (2022). Essa articulação serve para situar como essas estruturas atravessam as relações entre analistas e as condições da formação.

Entretanto, nomear apenas não nos serve de muito, é preciso de bem mais que isso. Algo que está em falta é a própria organização e união da classe trabalhadora. Estamos cada vez mais isolados, algo provocado pelo próprio colonialismo e capitalismo. “Cada um no seu castelo, cada um na sua função. Tudo junto, cada qual na sua solidão”, canta Racionais MC’s (2002). Por isso, analisar esse prisma apenas pela lente de psicanalista ou do campo da psicanálise é raso, é uma micropolítica, é preciso ir além dela. As relações de poder cotidiana são importantes para podermos analisar o macro, no qual os afetos e os desejos são coletivos muitas vezes. Por que seria “mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?” (Fisher, 2020). Contudo, podemos criar outros imaginários, simbolizando a realidade de quem tenta se sustentar do desejo do analista.

Quando Lacan (1967) diz: “só temos escolha entre enfrentar a verdade ou ridicularizar nosso saber”, é sobre isso que me refiro, e para ser analista precisamos nos deparar com a nossa verdade, seja ela qual for. Descobrir isso ocorre somente através das falhas do inconsciente que deixa as suas marcas, mas que não é possível saber muito, saber tudo, pois não conseguimos dizer tudo, nem para nós mesmos. É preciso sustentar e suportar ocupar o lugar de vazio em cada sessão, retirando qualquer resquício que reproduzirmos de um mestre, pois há muitos, para que não reste quase nada, sendo um mero objeto, que causa desejo para que o sujeito volte e fale mais um pouco. Por isso, no fim da análise, na travessia das fantasias, em sua autorização, o que deve restar é somente o desejo de que as coisas andem, que o sujeito volte e fale mais uma vez.

O medo da escassez condiz com o medo de não sair do lugar precarizado e desvalorizado, que é elaborado através do Kályton Resende (2024) acerca do trauma da pobreza, onde o sujeito aprende a viver na escassez e não reconhece a segurança atual, mesmo quando ascende economicamente, mas ainda se encontra em um não-lugar na sociedade, não se reconhecendo, em grande parte. Com isso, sustentar o desejo do analista no mercado das transferências exige, do sujeito em escassez, elaborar o próprio trauma da pobreza, um sofrimento que pode ser sentido por uma coletividade, mas que é singular para cada um. O trauma da pobreza neste contexto em que me insiro, considera a minha geração e além delas, recordando, por exemplo, de como o meu avô materno foi assassinado devido a sua função que exercia: um jagunço, um capataz que servia aos fazendeiros. Era dessa forma, através de uma função violenta que ele exercia para sustentar a sua vida e tentar conquistar um pedaço de terra para a nossa família.Diante disso, é preciso ir além do medo da escassez material, pois ela deixa marcas psíquicas transgeracionais.

Por fim, quando as transferências de trabalho operam como um mercado que segrega na psicanálise, vemos que é um reflexo da sociedade em que vivemos, na sua era capitalista e colonialista que se propaga há séculos. Diante disso, o custo de vida isola o sujeito do centro da cidade, e para isso, o meio virtual se tornou uma opção, porém ele não substitui a presença física. É interessante recordar do dilema que Schopenhauer (2012) tece acerca de como nós humanos, vivemos como os porcos-espinhos, em que necessitam se aquecer entre os outros, mas quando se aproximam muito acabam se machucando, e quando se afastam sentem frio novamente. Portanto, a questão que resta é sabermos como fazer esses laços e alianças. Que outra lógica de circulação pode ser pensada quando o mercado das transferências, em vez de abrir caminhos, reproduz a segregação?

Talvez seja possível pensar em outra forma de circulação a partir de Exu, o senhor do mercado, como propõe Wanderson Flor do Nascimento (2016). Diferentemente do mercado capitalista, orientado pela acumulação, o mercado de Exu se constitui pelas trocas, pela reciprocidade e pela circulação do axé, em que é oferecido sustentar as relações que tornam a vida possível. Se trata de eliminar os impasses das trocas, ao não fazer da acumulação e da competição as únicas formas de relação possíveis. Afinal, se ninguém produz tudo aquilo de que necessita, a sustentação do trabalho de um também depende das condições de vida do outro. Talvez seja nessa encruzilhada que possamos pensar em outras possibilidades para a formação analítica, indo além de apenas um acesso individual a um saber, para também ser como uma circulação que permita que mais sujeitos possam produzir, transmitir e se sustentar com a psicanálise.

Essa aposta ocorre através da minha própria experiência, sendo parte de uma comunidade tradicional de terreiro, em que se inventa outras formas de fazer laço, identificação e aliança, que contribui para a ascensão social e econômica ao mesmo tempo em que se cria uma forma de pertencimento, construindo família. É através da cosmologia afro-indígena brasileira que aposto para lidar com o mal-estar hoje, visto que as formações do inconsciente do sujeito brasileiro parte de uma cosmologia que não coincide com a constituição do sujeito da psicanálise europeu.

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ISSN 3086-8645

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